quinta-feira, março 31, 2011

Seems like so long ago now
But I can still remember those feelings
Of being left alone with myself
Sitting in the garden
Watching our house burn
Knowing I couldn't help it
It always had to end in a big statement like that
We were always so intense
Out of control
We never understood what we had
Never knew how to deal with it
Always tearing at each other
The violence and the shame
Banging my head against the wall
Wanting to explode


And it was my idea
And I put you there
I lied and said I didn't want you
You were running to someone else
Breaking the spell
Being able to see me for what I really was
And then the flames


Wanted you
Make me feel like no man in the world wanted you
Still feel the flame
Still feel the cold
Still feel the flame
Gets so cold around the stove
They still reach for me
Where you gonna go now
They still reach for me
Where you gonna go now


Made you feel like no man in the world wanted you
Made me feel like no woman in the world wanted me


Still feel the flame
Some days it seems I've left those feelings so far behind
Still feel the cold
But they're always there, waiting


Still feel the flame
Tempting, trying to release you
It's so cold around the stove
Don't believe, don't cherish your pretence
They still reach for me
You strike a match
Where you gonna go now
The thrill of having nothing
They still reach for me
The smell of the flames
Where you gonna go now


Made me feel like no man in the world wanted you
Made me feel like no woman in the world wanted me


Tindersticks
(se correu tudo bem, deve ser possível ouvi-la na listinha aí do lado)

quarta-feira, março 30, 2011

Não sei, amor, sequer, se te consinto ou se te inventas, brilhas, adormeces nas palavras sem carne em que te minto a verdade intemida em que me esqueces. Não sei, amor, se as lavas do vulcão nos lavam, veras, ou se trocam tintas dos olhos ao cabelo ou coração de tudo e de ti mesma. Não que sintas outra coisa de mais que nos feneça; mas só não sei, amor, se tu não sabes que sei de certo a malha que nos teça, o vento que nos leves ou nos traves, a mão que te nos dê ou te nos peça, o princípio de sol que nos acabes.
Pedro Tamen
Viverei sempre no assombro do mar. Tu também. Tantos anos depois, sei que era Junho. Pedes que te aperte um bocadinho mais. Tenho medo, corre-me vento pelo corpo, aperto e sabe-me tão bem. Levas-nos para um dos meus sitios preferidos, posso jurar que nunca to tinha confessado. Adivinhação pura. Adoro o cheiro desta noite, acho que são jasmins e sal, o mar é metade deste miradouro. Do outro agoniza um rio, está prestes a diluir-se mas é tudo harmónico, o reflexo das luzes da cidade e os farois a pairarem ao longe, há traineiras que se despedem debaixo da lua e são perseguidas por gaivotas.
- Se não parares de sorrir não te vou conseguir beijar.
Faço uma tentativa de seriedade. O céu ilumina-se de relâmpagos e também tu sorris sem parar. É alto, penso. Não resisto. Sei-me a sorrir novamente.
Estás perto e tão quente que consigo sentir-te o calor ainda antes de me tocares, sou um único arrepio, atropelada pelo coração.
- Se não sorrires, não sei se quero ser beijada. E digo-o tão baixo que durante um segundo não sei se me ouviste, aproximas-te devagarinho e caem-me na pele as primeiras gotas. Idealizei tanto este beijo e quando os lábios se encontram envergonho-me da avareza dos meus sonhos. Somos varridos pela chuva mas abriu-se-me o mundo e o tempo nos teus olhos. Deslumbro-me. E sei que, até ao final dos dias, sentirei sempre a assombração das águas.

terça-feira, março 29, 2011

domingo, março 27, 2011

É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.

- Levo uma vida monótona. Eu caço galinhas e os Homens caçam-me a mim. Todas as galinhas são iguais e todos os Homens são iguais. Por isso me aborreço um pouco. Mas, se tu me cativares, será como se o Sol iluminasse a minha vida. Distinguirei de todos os passos, um novo ruído de passos. Os outros passos fazem-me esconder debaixo da terra. Os teus hão-de atrair-me para fora da toca, como uma música. E depois, olha! Vês lá adiante os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me dizem nada. E é triste. Mas os teus cabelos são cor de oiro. Por isso, quando me tiveres cativado, vai ser maravilhoso. Como o trigo é doirado, fará lembrar-me de ti. E hei-de amar o barulho do vento através do trigo...A raposa calou-se e olhou por muito tempo para o principezinho.
- Cativa-me, por favor, disse ela.
- Tenho muito gosto, respondeu o principezinho, mas falta-me tempo. Preciso de descobrir amigos e conhecer outras coisas.
- Só se conhecem as coisas que se cativam, disse a raposa. Os Homens já não têm tempo para tomar conhecimento de nada. Compram coisas feitas aos mercadores. Mas como não existem mercadores de amigos, os Homens já não têm amigos. Se queres um amigo, cativa-me.
- Como é que hei-de fazer? disse o principezinho.
- Tens de ter muita paciência, respondeu a raposa. Primeiro, sentas-te um pouco afastado de mim, assim, na relva. Eu olho para ti pelo rabinho do olho e tu não dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, de dia para dia, podes sentar-te cada vez mais perto...
“O Principezinho” de Antoine de Saint-Exupéry
Ele diz que vê no vidro uma cruz desenhada. Depois outra. Têm o tamanho exacto da distância que me separa do coração dele. Não chegam sequer a aflorar a minha pele mas cravam-se na sua e, por um segundo, o universo está ordenado e só podia ser o que é esta noite. Desfia quase uma vida sem se esquecer de que eu estou ali, escolhe palavras. Elege pessoas e pinta-me o monstro mais feio que têm dentro delas, enternece-se a recordar paixões idas, despe-me com os olhos. Nascemos devagar.
É um carro-casulo e posso tocá-lo. Desejo-o tanto que não consigo e dentro de mim amplia-se o terror de que nunca perceba. Fazemos amor de muitas maneiras e nenhuma é com o corpo, fiz-me súplica, numa sucessão de orações a que nenhum deus será capaz de responder. Não choro. No segundo em que o sentir dentro de mim ter-me-ei rendido para sempre e ele sabe. Adio o momento até o tornar indefinível. Nunca será meu.
Chove como quando estavas a morrer e, até sermos invadidos pela aurora, não olho uma única vez para o relógio. De todos os fragmentos de noites que partilhámos, este é aquele em que estou mais frágil. Perdi-me no tempo e em mim. Zanga-se quando digo que é divino mas é amado por todas as mulheres do mundo e, pela primeira vez, sinto o meu amor sem valor próprio. Une-se a esta corrente que corre na sua direcção, deixou de ser rio com caudal, tornei-me afluente que nunca chegará ao mar.
Não são só os caminhos dos deuses que são insondáveis. Também nele sou incapaz de descobrir desígnios e intenção. São tantas as pessoas que o habitam que não principia nem finda, gere infinitos e intemporalidades. Cria exércitos conquistadores, sábios no cerco a corações desolados e estrategas ardentes na desconstrução das muralhas que compõem cada ser. Cada mulher. Se o primeiro sopro de amor me não tivesse agrilhoado teria escolhido para mim uma história diferente. Hoje já não consigo.
Gostaria de dizer-lhe que serei sempre sua mas julgo que, no seu panteão de coleccionador, não fará qualquer diferença. Recordo todas as vezes que me senti prestes a lançar-me de um precipício e nascem-me asas. Anjo negro, também eu. Nem puta nem santa. Nunca terei paz. Lanço-me ao vento em agonia, queria dar as boas vindas à primavera e sei que nunca existirão campos e colinas largos o suficiente para enterrar tanto amor.
Dou-me com dificuldade. Ontem à esperança, hoje a este calvário interminável que será uma vida inteira de silêncio. Imagina-me encarnação de maldade e nunca conseguirei dizer o quão cansada cheguei até ele. Sou tantos infernos de tristeza e dor e mágoa e morte que, para mim, nunca existirá redenção. Ofereço-me ao tempo e espero que me resgate. Um dia, far-me-ei grito de revolta sem raiva. Um dia, espero que me recorde com carinho. Um dia, qualquer dia, espero que perceba que nunca fui tão feliz como nas noites em que adormecemos de mãos dadas e a ternura era a palavra indizível das manhãs…
"O que conta é o inferno da história única. Nada a substitui, nem uma segunda história. Nem a mentira. Nada. Quanto mais a provocamos, mais ela foge. Amar é amar alguém. Não há um múltiplo da vida que possa ser vivido. Todas as primeiras histórias de amor se quebram e depois é essa história que transportamos para as outras histórias. Quando se viveu um amor com alguém, fica-se marcado para sempre e depois transporta-se essa história de pessoa a pessoa. Nunca nos separamos dele. Não podemos evitar a unicidade, a fidelidade, como se fôssemos, só nós, o nosso próprio cosmo. Amar toda a gente, como proclamam algumas pessoas e os cristãos, é embuste. Essas coisas não passam de mentiras. Só se ama uma pessoa de cada vez. Nunca duas ao mesmo tempo."
Marguerite Duras, Mundo Exterior

Conto

Perdi-me dentro de mim esta noite. Escrevo, reescrevo, corrigo, ainda mal dormi. Acabei de apagar tudo, há textos e frases tão dolorosos que não devem ser guardados. Regresso à pessoa-biblioteca pública, elimino intimidades, a escrita torna-se fúria indomesticável. É sempre assim quando se me quebra a alma e descubro que o caminho de regresso a casa são as palavras. Desaparecerei porque me foi pedido. E no sitio nenhum que sou hoje, deserto onde não regressarão as madressilvas, tremo sem parar e também eu me fiz temporal e agonia. Oiço os meus mortos. Vive. Vive. Vive. Sem ti não existirá memória.

terça-feira, dezembro 14, 2010

O Paraíso segundo Fitzgerald

Beauty, who was born anew every hundred years, sat in a sort of outdoor waiting room through which blew gusts of wind and ocasionally a breathless hurried star. The stars winked at her intimately as they went by and the winds made a soft incessant flurry in her hair. She was incomprehensible, for, in her, soul and spirit were one - the beauty of ther body was the essence of her soul. She was that unit sought for by philosophers through many centuries. In this outdoor waiting room of winds and stars she had been sitting for a hundred years, at peace in the contemplation of herself. It became known to her, at length, that she was born again. Sighting, she began a long conversation with a voice that was in the white wind, a conversation that took many hours and of which I can give only a fragment here.
F. Scott Fitzgerald, The Beautiful and Damned

sábado, outubro 16, 2010

"Deve aprendê-lo novamente. Deve ensinar-se a si próprio a mais básica das coisas que deve temer; e, ao ensinar-se isso, esquecê-lo para sempre, não deixando espaço na sua oficina para qualquer coisa que não sejam as antigas veracidades e verdades do coração, as antigas verdades universais que tornam cada história efémera e condenada – amor e honra e piedade e orgulho e compaixão e sacrifício."
William Faulkner, no discurso de aceitação do seu Nobel

Debaixo das estrelas

A flutuar aqui assim contigo
Debaixo das estrelas
(Alinhadas) há 13 biliões de anos
A vista é bela
E só nossa esta noite
Debaixo das estrelas
A girar uma e outra volta contigo
Vendo as sombras derreter a luz
Que brilha suave dos teus olhos
Para outro espaço
É só nosso esta noite
Vendo as sombras derreter
E as ondas partem
E as ondas partem
Susurras no meu ouvido um desejo
“Podiamos partir à deriva”
Bem segura
A tua voz dentro da minha cabeça
O beijo é infinito 
E só nosso esta noite
“Podíamos partir à deriva”
A voar assim contigo
Debaixo das estrelas
Iluminadas há 13 biliões de anos
E só nossas esta noite
Debaixo das estrelas
E tudo o que foi
E tudo o que virá
Não nos será nada
Juntos como um só
Abraçados
Tão perto e tão longe
Sempre como agora
Debaixo das estrelas
Como as ondas que se partem

The Cure, Underneath the stars (tradução manhosa minha)

tu-em-outubro

Quantos anos tem a tua alma? Não a consigo imaginar intemporal, impressa em papiro ou gravada em pedra, em línguas que se deixaram morrer de tão gastas. Pergunto-me em quantas pessoas vives ou se regressarás uno, se és também flor, girassol ou orquídea? se alguma vez sentiste que tocasse a minha quando estamos (juntos, amor) ou se haverá partículas de ti em todas as pessoas de quem gosto. Imagino que tens um princípio, como eu, mas ainda te não descobri o fim e quanto penso em ti-palavra-em-mim és vento. Perdemo-nos quase tantas vezes como nos encontramos mas deve existir um qualquer fio de filigrana invisível, não me consigo desprender (de ti, meu bem, que és pessoa-universo). É uma estranha forma de amar, a nossa, malabarismo numa corda de circo ou levitação à beira de um precipício. Há dias em que acho que recriamos um cerimonial antigo, em que as almas se apresentam e se cortejam sem pressa. Outros há, em que sinto que nos deixámos ir (para os outros mundos só nossos) e que passarão muitos séculos até nos reencontrarmos. Achas que tens uma alma antiga? Ou que nasceste nesta vida e ela está fadada a crescer enquanto a minha definha? Teremos vindo das mesmas profundezas do tempo, roçado um num outro noutras eras ou nesta história, sem nunca nos sentirmos antes?

segunda-feira, agosto 16, 2010

Da tristeza e outros demónios

As pessoas dizem “Morreu…” e estão todas enganadas, não foi nada disso que te aconteceu e não te deixo morreres-me quando te apetece. Falo contigo porque não consigo falar com mais ninguém e estou zangada porque te esqueceste, porque é que não vens assombrar-me?

Este ano lembrei-me só eu e não disse a vivalma, tu sabes que eu sei e sempre adorámos os silêncios nos olhos um do outro. Quem cá está (eu não conto, sou metade de mim e menos um bocadinho) vai usando todas as palavras no dicionário e não consegue dizer nada, não percebo esta ânsia em gastá-las a todas se a nenhuma é concedido peso, substância, intenção.

Todas as tristezas têm verdades intrínsecas e eu quedo-me sem lágrimas. A tristeza-só-minha tem demónios que me visitam de noite, quando tu não estás, mas não faz diferença nenhuma, a minha alma aninhou-se e escondeu-se quando desceram o teu caixão.

Tenho o coração descompassado e desocupado e não sei porque é que escrevo isto, não é nada que não saibas já nem nada que nunca tenhas sabido (tu que sempre soubeste tudo, sentiste tudo e deste tudo, não achas que me deves mais do que uma carta, mais do que recordações, mais do que viver uma vida inteira sem ti?)

Não houve árvore, nem rum, nem ria, nem traineiras, nem as luzes da cidade a tremelicar na água. Não consegui voltar a fazer isso e não sei se alguém lá foi, fui sempre invasora num sítio só vosso e nem sequer é aí que te recordo.

Nós tínhamos uma falésia, um forte de mármore cinzento na serra, charros fumados às escondidas, homens que tocam saxofone a horas impróprias, filmes de terror e tudo o que não quero aqui contar, já ofereci tantos pedaços de ti…

Nós tínhamos (claro que volto atrás e ao mesmo, não foste tu quem me proibiu de desistir?) um mapa invertido para viver a vida, nesta casa educam-se livres-pensadores, dizia o pai, e tenho vontade de lhe gritar vai-à-merda, tu e essa teoria cretina, tinhas de lhe ter formatado o cérebro para ser como as pessoas normais, essas-que-não-encostam-caçadeiras-à-boca-e-disparam.

E é tão injusto que fico sem ar, ele morreu contigo e não tenho ninguém que oiça os meus gritos. Vou escrevendo tudo para que sintas a vida passar, onde quer que estejas, tudo o que não consigo dizer porque vive na minha garganta uma roseira brava e os espinhos vão rasgando a carne à medida que crescem. Porque é que não vens assombrar-me?

terça-feira, fevereiro 16, 2010

Largos são os dias sem ti...

... meu querido. Mais do que os que consigo somar, agora contabilizados em meses e anos e não em semanas ou dias. Sinto o aperto (quantos mais anos sentirei?) e dominas os meus sonhos, puxas-me as orelhas e ris (lembrar-me-ei da ultima vez que rimos juntos?) e invento uma vida paralela, onde vives ainda.
Os teus amigos cresceram. Alguns casaram, alguns correm mundo, alguns estão exactamente onde estavam e não terias grandes problemas em pôr-te a par. Com alguns vou falando e sei que têm saudades tuas cada vez que olham para mim. Será parte daquela pergunta que te irritava sempre um bocadinho, são gemeos? e da resposta altiva, cheia de orgulho eu sou mais novo quase dois anos (e no intimo, não tenho culpa nenhuma que ela pareça infantil...).
Desejo os devidos parabéns a quem ainda calcorrea o mundo e em silêncio, desligo o telemóvel e penso em ti, nas memórias que correm para além da memória, nos anos que tive e nos que perdi.
Acho que ninguém percebe muito bem que te trago comigo todos os dias e que há alturas em que não te consigo partilhar. Sei que me reconheces naquilo que me torna irreconhecivel a olhares alheios, em sangue, cheiro e terra. Uma parte de mim suspeita que também querias isso e que me desejaste um futuro em que fosse incapaz de reinventar o passado.
É estranho, sabes. Sei-me muito mais quem sou porque viveste e não porque me morreste. Vou repetindo que a minha persistência vem do amor e não da perda mas há dias, como hoje, que não sei bem o que é que estou a tentar provar nem a quem. Parte dos meus sonhos foram-se, estilhaçados pelo peso dos dias repetidos, e desses sinto uma falta relativa. Vou-me dizendo que impossivel é deixá-los morrer a todos, que aí chegarei exactamente onde tu chegaste e eu prometi-nos que continuava, mesmo que nunca me tenhas ouvido dizê-lo. Assim, reinvento. Ou ponho os pés pelas mãos e esforço-me. Ou esquivo-me a defini-los com precisão, para evitar perceber o que é que perco e se estou a ganhar alguma coisa. Precisava muito que viesses esta noite. Que, com duas frases arrasadoras, me fizesses sentir irrecuperavelmente rendida. E que, entre a gargalhada e a sobrancelha levantada, me passasses a ganza (és capaz de parar de rir que o pai ouve?) e inquirisses a partir do momento em que nos desviámos então? vais ou não contar-me o que é que se tem passado em Lisboa?
E largos continuarão a ser todos os dias...

terça-feira, outubro 13, 2009

1800 kms depois continua (quase) tudo na mesma!

Este é o meu balanço da season eleitoral. Três fins de semana. 1800 kms. 5 votos depositados nas urnas. 2 no Bloco, 3 no PCP. Distribuam-nos com imaginação. Mantive-me fiel ao princípio de não votar Sócrates este ano. Tenho uma tristeza imensa do meu socialismo se ter tornado nesta coisa manhosa, amorfa, corrupta, medrosa e desgraçadamente cumplice nos silêncios. Voltaria a fazer cada km, mesmo sabendo que os meus votos serviram para muito pouco. Exceptuando a subida meteórica do PP (lógica, ainda assim, porque os extremismos de direita sobem sempre em alturas de crise), o resto era relativamente expectável. Pensei que o PS se saisse um bocadinho pior mas dadas as alternativas, consigo perceber bem esta escolha. Visto que não vamos ter uma revolução nas ruas (que pena...queria tanto viver um sucedâneo do 25 de Abril), o melhor mesmo é esta solução de compromisso, que obriga a negociar, a discutir, a regatear e a alguma ginástica contorcionista de circo. A maioria absoluta é um disparate. Pedi-la é sinal de que são sumariamente incompetentes para a saudável discussão democrática. Devemos ser o único país civilizado onde se defende a ingovernabilidade sempre que há necessidade de coligações parlamentares. Não perdemos o complexo Marquês de Pombal e mantemo-nos Salazarentos e empoeirados. Praticamos a critica e a má-língua com despudor mas quando chega a altura de fazer qualquer coisa, preferimos o Chuck Norris e o sofá, o farnel e a praia, o amor livre nos bosques (acho eu, que por esta altura deve haver pouco bosque que não tenha sido reduzido a cinzas...). E isso chateia-me, caraças. Fiz 1800 kms e estou viva. Custava muito sair de casa, atravessar a rua e pôr uma cruz num papelinho?

sábado, outubro 10, 2009

A paz dos homens?

Isso, pá. Lixem a presidência do homem, sim. Atem-lhe as mãos e os pés, concedam-lhe "estatura moral" e a "grande honra" de ter mais um motivo para ser atacado, a nível interno e nos palcos armadilhados onde se brinca à grande política internacional. Tirem-lhe espaço de manobra para gerir equilíbrios, gozem com o facto de ter herdado e estar entalado em dois cenários de guerra invenciveis, boicotem cada cimeira em que consiga juntar palestinianos e israelitas (pura incompetência do Nobel, daqui para a frente...), amordacem-lhe a boca cada vez que ameaçar carneirinhos tresmalhados com arsenal nuclear e por aí em diante. Será impressão minha ou nunca a Academia Sueca ofereceu uma cenoura com um pau tão comprido?

domingo, outubro 04, 2009

Sussuro para o filho que ainda não tenho

Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya
Jorge de Sena
Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso. É possível, porque tudo é possível, que ele seja aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo, onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém de nada haver que não seja simples e natural. Um mundo em que tudo seja permitido, conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer, o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós. E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto o que vos interesse para viver. Tudo é possível, ainda quando lutemos, como devemos lutar, por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,ou mais que qualquer uma delas uma fiel dedicação à honra de estar vivo. Um dia sabereis que mais que a humanidade não tem conta o número dos que pensaram assim, amaram o seu semelhante no que ele tinha de único, de insólito, de livre, de diferente, e foram sacrificados, torturados, espancados, e entregues hipocritamente à secular justiça, para que os liquidasse com suma piedade e sem efusão de sangue. Por serem fiéis a um deus, a um pensamento, a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas à fome irrespondível que lhes roía as entranhas, foram estripados, esfolados, queimados, gaseados, e os seus corpos amontoados tão anónimamente quanto haviam vivido, ou as suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória. Às vezes, por serem de uma raça, outras por serem de uma classe, expiaram todos os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência de haver cometido. Mas também aconteceu e acontece que não foram mortos. Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer, aniquilando mansamente, delicadamente, por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de deus. Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror, foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha há mais de um século e que por violenta e injusta ofendeu o coração de um pintor chamado Goya, que tinha um coração muito grande, cheio de fúria e de amor. Mas isto nada é, meus filhos, apenas um episódio, um episódio breve, nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis) de ferro e de suor e sangue e algum sémen a caminho do mundo que vos sonho. Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la. É isto o que mais importa - essa alegria. Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto não é senão essa alegria que vem de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém está menos vivo ou sofre ou morre para que um só de vós resista um pouco mais à morte que é de todos e virá. Que tudo isto sabereis serenamente, sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição, e sobretudo sem desapego ou indiferença, ardentemente espero. Tanto sangue, tanta dor, tanta angústia, um dia-mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -não hão-de ser em vão. Confesso que muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos de opressão e crueldade, hesito por momentos e uma amargura me submerge inconsolável. Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam, quem ressuscita esses milhões, quem restitui não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado? Nenhum juízo final, meus filhos, pode dar-lhes aquele instante que não viveram, aquele objecto que não fruíram, aquele gesto de amor, que fariam "amanhã". E, por isso, o mesmo mundo que criemos nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa que não é só nossa, que nos é cedida para a guardarmos respeitosamente em memória do sangue que nos corre nas veias, da nossa carne que foi outra, do amor que outros não amaram porque lho roubaram.
Quero, um dia, poder ler isto aos meus filhos. Quero poder sussurar-lhes à noite que a vida vai ser dificil mas que vale cada segundo. Que espero que sejam corajosos, livres e justos. Que não estão autorizados a desistir de sonhar. Espero que cresçam com a verdade fundida na alma e que o coração bata descompassadamente com cada iniquidade que presenciem. Que sejam pessoas de riso fácil e lágrimas solidárias. Que compreendam o real valor de cada queda e, por isso, estendam sempre as mãos a quem precisa. Quero conhecer os filhos que ainda não tenho. Ficar surpreendida porque não são exactamente como eu os sonhei mas como são, orgulhosa porque são melhores que eu, triste porque vão cambalear demasiadas vezes no caminho. Queria que acreditassem na magia do amor, que aprendam a entregar-se inteiros (nunca menos do que eles todos), que sejam leais para quem a eles se entregar, em tempos de amizade ou de guerra. Quero muito poder embalá-los, aninhá-los, passar-lhes as mãos pelo cabelo, beijar-lhes a testa e dizer-lhes que os amo mais do que o tempo de uma vida e, que sim, viverei enquanto eles viverem e enquanto os seus filhos viverem e os filhos dos seus filhos. E que, se algum dia me perder no caminho e deixar de lá estar, alguém vai agarrá-los no exacto ponto onde os deixei e ensiná-los a dar os próximos passos. Que nunca caminharão sozinhos.

sexta-feira, outubro 02, 2009

Palavras roubadas

TEMPO DE AMOR (SAMBA DO VELOSO) Vinícius de Moraes Ah, bem melhor seria Poder viver em paz Sem ter que sofrer Sem ter que chorar Sem ter que querer Sem ter que se dar Mas tem que sofrer Mas tem que chorar Mas tem que querer Pra poder amar Ah, mundo enganador Paz não quer mais dizer amor Ah, não existe Coisa mais triste que ter paz E se arrepender E se conformar E se proteger De um amor a mais O tempo de amor É tempo de dor O tempo de paz Não faz nem desfaz Ah, que não seja meu O mundo onde o amor morreu

domingo, setembro 20, 2009

Uma etiqueta só para mim

Às vezes penso que gostava que viéssemos "etiquetados". Que nos pusessem à nascença uma pulseirinha ou um chip ou qualquer outra coisa, altamente futuristica, que nos desse uma pista para encontrar a pessoa no mundo mais compatível connosco. A alma gémea.
A escolha de correr o mundo à procura ou atalhar a felicidade com alguém que se conheceu no caminho seria inteiramente nossa. Mas pelo menos saberíamos que, algures, há uma pessoa mais perfeita que todas as outras para nós. E tentávamos.