terça-feira, dezembro 14, 2010

O Paraíso segundo Fitzgerald

Beauty, who was born anew every hundred years, sat in a sort of outdoor waiting room through which blew gusts of wind and ocasionally a breathless hurried star. The stars winked at her intimately as they went by and the winds made a soft incessant flurry in her hair. She was incomprehensible, for, in her, soul and spirit were one - the beauty of ther body was the essence of her soul. She was that unit sought for by philosophers through many centuries. In this outdoor waiting room of winds and stars she had been sitting for a hundred years, at peace in the contemplation of herself. It became known to her, at length, that she was born again. Sighting, she began a long conversation with a voice that was in the white wind, a conversation that took many hours and of which I can give only a fragment here.
F. Scott Fitzgerald, The Beautiful and Damned

sábado, outubro 16, 2010

"Deve aprendê-lo novamente. Deve ensinar-se a si próprio a mais básica das coisas que deve temer; e, ao ensinar-se isso, esquecê-lo para sempre, não deixando espaço na sua oficina para qualquer coisa que não sejam as antigas veracidades e verdades do coração, as antigas verdades universais que tornam cada história efémera e condenada – amor e honra e piedade e orgulho e compaixão e sacrifício."
William Faulkner, no discurso de aceitação do seu Nobel

Debaixo das estrelas

A flutuar aqui assim contigo
Debaixo das estrelas
(Alinhadas) há 13 biliões de anos
A vista é bela
E só nossa esta noite
Debaixo das estrelas
A girar uma e outra volta contigo
Vendo as sombras derreter a luz
Que brilha suave dos teus olhos
Para outro espaço
É só nosso esta noite
Vendo as sombras derreter
E as ondas partem
E as ondas partem
Susurras no meu ouvido um desejo
“Podiamos partir à deriva”
Bem segura
A tua voz dentro da minha cabeça
O beijo é infinito 
E só nosso esta noite
“Podíamos partir à deriva”
A voar assim contigo
Debaixo das estrelas
Iluminadas há 13 biliões de anos
E só nossas esta noite
Debaixo das estrelas
E tudo o que foi
E tudo o que virá
Não nos será nada
Juntos como um só
Abraçados
Tão perto e tão longe
Sempre como agora
Debaixo das estrelas
Como as ondas que se partem

The Cure, Underneath the stars (tradução manhosa minha)

tu-em-outubro

Quantos anos tem a tua alma? Não a consigo imaginar intemporal, impressa em papiro ou gravada em pedra, em línguas que se deixaram morrer de tão gastas. Pergunto-me em quantas pessoas vives ou se regressarás uno, se és também flor, girassol ou orquídea? se alguma vez sentiste que tocasse a minha quando estamos (juntos, amor) ou se haverá partículas de ti em todas as pessoas de quem gosto. Imagino que tens um princípio, como eu, mas ainda te não descobri o fim e quanto penso em ti-palavra-em-mim és vento. Perdemo-nos quase tantas vezes como nos encontramos mas deve existir um qualquer fio de filigrana invisível, não me consigo desprender (de ti, meu bem, que és pessoa-universo). É uma estranha forma de amar, a nossa, malabarismo numa corda de circo ou levitação à beira de um precipício. Há dias em que acho que recriamos um cerimonial antigo, em que as almas se apresentam e se cortejam sem pressa. Outros há, em que sinto que nos deixámos ir (para os outros mundos só nossos) e que passarão muitos séculos até nos reencontrarmos. Achas que tens uma alma antiga? Ou que nasceste nesta vida e ela está fadada a crescer enquanto a minha definha? Teremos vindo das mesmas profundezas do tempo, roçado um num outro noutras eras ou nesta história, sem nunca nos sentirmos antes?

segunda-feira, agosto 16, 2010

Da tristeza e outros demónios

As pessoas dizem “Morreu…” e estão todas enganadas, não foi nada disso que te aconteceu e não te deixo morreres-me quando te apetece. Falo contigo porque não consigo falar com mais ninguém e estou zangada porque te esqueceste, porque é que não vens assombrar-me?

Este ano lembrei-me só eu e não disse a vivalma, tu sabes que eu sei e sempre adorámos os silêncios nos olhos um do outro. Quem cá está (eu não conto, sou metade de mim e menos um bocadinho) vai usando todas as palavras no dicionário e não consegue dizer nada, não percebo esta ânsia em gastá-las a todas se a nenhuma é concedido peso, substância, intenção.

Todas as tristezas têm verdades intrínsecas e eu quedo-me sem lágrimas. A tristeza-só-minha tem demónios que me visitam de noite, quando tu não estás, mas não faz diferença nenhuma, a minha alma aninhou-se e escondeu-se quando desceram o teu caixão.

Tenho o coração descompassado e desocupado e não sei porque é que escrevo isto, não é nada que não saibas já nem nada que nunca tenhas sabido (tu que sempre soubeste tudo, sentiste tudo e deste tudo, não achas que me deves mais do que uma carta, mais do que recordações, mais do que viver uma vida inteira sem ti?)

Não houve árvore, nem rum, nem ria, nem traineiras, nem as luzes da cidade a tremelicar na água. Não consegui voltar a fazer isso e não sei se alguém lá foi, fui sempre invasora num sítio só vosso e nem sequer é aí que te recordo.

Nós tínhamos uma falésia, um forte de mármore cinzento na serra, charros fumados às escondidas, homens que tocam saxofone a horas impróprias, filmes de terror e tudo o que não quero aqui contar, já ofereci tantos pedaços de ti…

Nós tínhamos (claro que volto atrás e ao mesmo, não foste tu quem me proibiu de desistir?) um mapa invertido para viver a vida, nesta casa educam-se livres-pensadores, dizia o pai, e tenho vontade de lhe gritar vai-à-merda, tu e essa teoria cretina, tinhas de lhe ter formatado o cérebro para ser como as pessoas normais, essas-que-não-encostam-caçadeiras-à-boca-e-disparam.

E é tão injusto que fico sem ar, ele morreu contigo e não tenho ninguém que oiça os meus gritos. Vou escrevendo tudo para que sintas a vida passar, onde quer que estejas, tudo o que não consigo dizer porque vive na minha garganta uma roseira brava e os espinhos vão rasgando a carne à medida que crescem. Porque é que não vens assombrar-me?

terça-feira, fevereiro 16, 2010

Largos são os dias sem ti...

... meu querido. Mais do que os que consigo somar, agora contabilizados em meses e anos e não em semanas ou dias. Sinto o aperto (quantos mais anos sentirei?) e dominas os meus sonhos, puxas-me as orelhas e ris (lembrar-me-ei da ultima vez que rimos juntos?) e invento uma vida paralela, onde vives ainda.
Os teus amigos cresceram. Alguns casaram, alguns correm mundo, alguns estão exactamente onde estavam e não terias grandes problemas em pôr-te a par. Com alguns vou falando e sei que têm saudades tuas cada vez que olham para mim. Será parte daquela pergunta que te irritava sempre um bocadinho, são gemeos? e da resposta altiva, cheia de orgulho eu sou mais novo quase dois anos (e no intimo, não tenho culpa nenhuma que ela pareça infantil...).
Desejo os devidos parabéns a quem ainda calcorrea o mundo e em silêncio, desligo o telemóvel e penso em ti, nas memórias que correm para além da memória, nos anos que tive e nos que perdi.
Acho que ninguém percebe muito bem que te trago comigo todos os dias e que há alturas em que não te consigo partilhar. Sei que me reconheces naquilo que me torna irreconhecivel a olhares alheios, em sangue, cheiro e terra. Uma parte de mim suspeita que também querias isso e que me desejaste um futuro em que fosse incapaz de reinventar o passado.
É estranho, sabes. Sei-me muito mais quem sou porque viveste e não porque me morreste. Vou repetindo que a minha persistência vem do amor e não da perda mas há dias, como hoje, que não sei bem o que é que estou a tentar provar nem a quem. Parte dos meus sonhos foram-se, estilhaçados pelo peso dos dias repetidos, e desses sinto uma falta relativa. Vou-me dizendo que impossivel é deixá-los morrer a todos, que aí chegarei exactamente onde tu chegaste e eu prometi-nos que continuava, mesmo que nunca me tenhas ouvido dizê-lo. Assim, reinvento. Ou ponho os pés pelas mãos e esforço-me. Ou esquivo-me a defini-los com precisão, para evitar perceber o que é que perco e se estou a ganhar alguma coisa. Precisava muito que viesses esta noite. Que, com duas frases arrasadoras, me fizesses sentir irrecuperavelmente rendida. E que, entre a gargalhada e a sobrancelha levantada, me passasses a ganza (és capaz de parar de rir que o pai ouve?) e inquirisses a partir do momento em que nos desviámos então? vais ou não contar-me o que é que se tem passado em Lisboa?
E largos continuarão a ser todos os dias...