... meu querido. Mais do que os que consigo somar, agora contabilizados em meses e anos e não em semanas ou dias. Sinto o aperto (quantos mais anos sentirei?) e dominas os meus sonhos, puxas-me as orelhas e ris (lembrar-me-ei da ultima vez que rimos juntos?) e invento uma vida paralela, onde vives ainda.
Os teus amigos cresceram. Alguns casaram, alguns correm mundo, alguns estão exactamente onde estavam e não terias grandes problemas em pôr-te a par. Com alguns vou falando e sei que têm saudades tuas cada vez que olham para mim. Será parte daquela pergunta que te irritava sempre um bocadinho, são gemeos? e da resposta altiva, cheia de orgulho eu sou mais novo quase dois anos (e no intimo, não tenho culpa nenhuma que ela pareça infantil...).
Desejo os devidos parabéns a quem ainda calcorrea o mundo e em silêncio, desligo o telemóvel e penso em ti, nas memórias que correm para além da memória, nos anos que tive e nos que perdi.
Acho que ninguém percebe muito bem que te trago comigo todos os dias e que há alturas em que não te consigo partilhar. Sei que me reconheces naquilo que me torna irreconhecivel a olhares alheios, em sangue, cheiro e terra. Uma parte de mim suspeita que também querias isso e que me desejaste um futuro em que fosse incapaz de reinventar o passado.
É estranho, sabes. Sei-me muito mais quem sou porque viveste e não porque me morreste. Vou repetindo que a minha persistência vem do amor e não da perda mas há dias, como hoje, que não sei bem o que é que estou a tentar provar nem a quem. Parte dos meus sonhos foram-se, estilhaçados pelo peso dos dias repetidos, e desses sinto uma falta relativa. Vou-me dizendo que impossivel é deixá-los morrer a todos, que aí chegarei exactamente onde tu chegaste e eu prometi-nos que continuava, mesmo que nunca me tenhas ouvido dizê-lo. Assim, reinvento. Ou ponho os pés pelas mãos e esforço-me. Ou esquivo-me a defini-los com precisão, para evitar perceber o que é que perco e se estou a ganhar alguma coisa. Precisava muito que viesses esta noite. Que, com duas frases arrasadoras, me fizesses sentir irrecuperavelmente rendida. E que, entre a gargalhada e a sobrancelha levantada, me passasses a ganza (és capaz de parar de rir que o pai ouve?) e inquirisses a partir do momento em que nos desviámos então? vais ou não contar-me o que é que se tem passado em Lisboa?
E largos continuarão a ser todos os dias...