domingo, maio 15, 2011
quarta-feira, maio 11, 2011
domingo, maio 08, 2011
"I decline to accept the end of man" *
(...)
In spite of this, to oppression, plundering and abandonment, we respond with life. Neither floods nor plagues, famines nor cataclysms, nor even the eternal wars of century upon century, have been able to subdue the persistent advantage of life over death. An advantage that grows and quickens: every year, there are seventy-four million more births than deaths, a sufficient number of new lives to multiply, each year, the population of New York sevenfold. Most of these births occur in the countries of least resources - including, of course, those of Latin America. Conversely, the most prosperous countries have succeeded in accumulating powers of destruction such as to annihilate, a hundred times over, not only all the human beings that have existed to this day, but also the totality of all living beings that have ever drawn breath on this planet of misfortune.
On a day like today, my master William Faulkner said, "I decline to accept the end of man". I would fall unworthy of standing in this place that was his, if I were not fully aware that the colossal tragedy he refused to recognize thirty-two years ago is now, for the first time since the beginning of humanity, nothing more than a simple scientific possibility. Faced with this awesome reality that must have seemed a mere utopia through all of human time, we, the inventors of tales, who will believe anything, feel entitled to believe that it is not yet too late to engage in the creation of the opposite utopia. A new and sweeping utopia of life, where no one will be able to decide for others how they die, where love will prove true and happiness be possible, and where the races condemned to one hundred years of solitude will have, at last and forever, a second opportunity on earth.
Gabriel Garcia Márquez, Palestra do Nobel, 1982
* William Faulkner
- Quero falar consigo. Fique, se faz favor.
O tom é amistoso mas inequivocamente uma ordem. Desacelero o passo, mantenho-me na sala. Aguardo.
- Você é uma fraude. Não percebe patavina de Filosofia. Nem sequer consigo saber se ouviu uma única palavra do que disse nas aulas. Se leu algum dos textos.
Encolho-me. Não respondo.
- Li o seu teste. Também não consigo perceber se lhe devia dar 10 ou 20. Com honestidade. Um 16 satisfá-la?
- Sim. A resposta automática, nem sequer pensei. Serve perfeitamente.
- Há trinta anos que ensino e é a primeira vez que me acontece. Você é uma escritora natural. É tão perfeito que reli. E continuo sem conseguir perceber se considerou que o teste era tão básico que não valia a pena responder às perguntas ou se não sabe quem foi Kant e decidiu gozar comigo.
Tinha 15 anos. Tu morreste-me uns meses depois e matei os contos, os poemas muito negros, maníaco-depressivos, filha, mas porque é que só escreves poesia triste? os mil projectos de livros que não passaram da 20.ª página. Nos 15 anos seguintes não escrevi uma palavra que não fosse pela mais estrita obrigação, deixei-as agonizar infames dentro de mim. Quero recomeçar e não sei como.
Nesse ano, fiz mais quatro testes de Filosofia. Em todos tive 16.
- Olhe, escreva sobre o que quiser. É um alivio. Nunca encontro quem se interrogue.
"Now is the time to think of only one thing. That which I was born for." *
Nasci velho e estou a ficar mais simples, conta. Não nos conhecemos bem o suficiente para conseguir concordar, oiço e memorizo. Desta vez, eu que tenho tanto prazer em perder-me nas vozes dos outros, falo quase sem parar. Recordei depois uma frase que me foi repetida tantas vezes na infância “somos senhores das palavras não pronunciadas, mas escravos das que deixamos escapar”, é do Churchill, foi ele quem ma recordou, mas quando o descobri já o meu pai tinha morrido. Penso…talvez tenha ficado desiludido por não o ter questionado. Ou, se calhar não, ficou feliz pela minha serena aceitação de um facto tão óbvio. Nunca será minha a vida em que regressaremos ao ritual das conversas íntimas antes de se deitar. Acumulo perguntas sem resposta. Todas as palavras têm significado, todas têm poder. Aprende a usá-las com sabedoria. E sou acometida por uma sensação inescapável de fracasso, persegue-me há alguns dias, tenho tido dificuldade em discernir o meu caminho. Estes três dias confundiram-me, diz o homem triste à minha frente. A mim também. Suspendo a resposta a tempo, do quê exactamente não sei, devo ter sorrido mas já não consigo precisar com segurança. Escreve-me sobre o valor do silêncio enquanto resposta, só que eu ando às voltas com as frases de tantas pessoas na cabeça, é-me impossível saber quantos destes pensamentos são meus e quantos fui usurpando. Encontramo-nos quase todas as tardes, num local que não existe, vamo-nos enredando nas palavras um do outro. É uma intimidade fácil, esta. Natural. Não conseguimos ser amigos. Nunca poderemos ser amantes. Vejo-nos sem mácula, mas temo o prolongamento indefinível deste beco sem saída, todos os percursos têm encruzilhadas de onde não se regressa nunca. E sou invadida pelo eco de uma grande amizade se te sentes assim, afasta-te, não podes continuar a fazer-te isso. E a pergunta que não fiz, que não existia, mas que cresce indomesticável nos meus lábios… de quem?
* Ernest Hemingway, The Old Man and the Sea
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