terça-feira, outubro 13, 2009

1800 kms depois continua (quase) tudo na mesma!

Este é o meu balanço da season eleitoral. Três fins de semana. 1800 kms. 5 votos depositados nas urnas. 2 no Bloco, 3 no PCP. Distribuam-nos com imaginação. Mantive-me fiel ao princípio de não votar Sócrates este ano. Tenho uma tristeza imensa do meu socialismo se ter tornado nesta coisa manhosa, amorfa, corrupta, medrosa e desgraçadamente cumplice nos silêncios. Voltaria a fazer cada km, mesmo sabendo que os meus votos serviram para muito pouco. Exceptuando a subida meteórica do PP (lógica, ainda assim, porque os extremismos de direita sobem sempre em alturas de crise), o resto era relativamente expectável. Pensei que o PS se saisse um bocadinho pior mas dadas as alternativas, consigo perceber bem esta escolha. Visto que não vamos ter uma revolução nas ruas (que pena...queria tanto viver um sucedâneo do 25 de Abril), o melhor mesmo é esta solução de compromisso, que obriga a negociar, a discutir, a regatear e a alguma ginástica contorcionista de circo. A maioria absoluta é um disparate. Pedi-la é sinal de que são sumariamente incompetentes para a saudável discussão democrática. Devemos ser o único país civilizado onde se defende a ingovernabilidade sempre que há necessidade de coligações parlamentares. Não perdemos o complexo Marquês de Pombal e mantemo-nos Salazarentos e empoeirados. Praticamos a critica e a má-língua com despudor mas quando chega a altura de fazer qualquer coisa, preferimos o Chuck Norris e o sofá, o farnel e a praia, o amor livre nos bosques (acho eu, que por esta altura deve haver pouco bosque que não tenha sido reduzido a cinzas...). E isso chateia-me, caraças. Fiz 1800 kms e estou viva. Custava muito sair de casa, atravessar a rua e pôr uma cruz num papelinho?

sábado, outubro 10, 2009

A paz dos homens?

Isso, pá. Lixem a presidência do homem, sim. Atem-lhe as mãos e os pés, concedam-lhe "estatura moral" e a "grande honra" de ter mais um motivo para ser atacado, a nível interno e nos palcos armadilhados onde se brinca à grande política internacional. Tirem-lhe espaço de manobra para gerir equilíbrios, gozem com o facto de ter herdado e estar entalado em dois cenários de guerra invenciveis, boicotem cada cimeira em que consiga juntar palestinianos e israelitas (pura incompetência do Nobel, daqui para a frente...), amordacem-lhe a boca cada vez que ameaçar carneirinhos tresmalhados com arsenal nuclear e por aí em diante. Será impressão minha ou nunca a Academia Sueca ofereceu uma cenoura com um pau tão comprido?

domingo, outubro 04, 2009

Sussuro para o filho que ainda não tenho

Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya
Jorge de Sena
Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso. É possível, porque tudo é possível, que ele seja aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo, onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém de nada haver que não seja simples e natural. Um mundo em que tudo seja permitido, conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer, o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós. E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto o que vos interesse para viver. Tudo é possível, ainda quando lutemos, como devemos lutar, por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,ou mais que qualquer uma delas uma fiel dedicação à honra de estar vivo. Um dia sabereis que mais que a humanidade não tem conta o número dos que pensaram assim, amaram o seu semelhante no que ele tinha de único, de insólito, de livre, de diferente, e foram sacrificados, torturados, espancados, e entregues hipocritamente à secular justiça, para que os liquidasse com suma piedade e sem efusão de sangue. Por serem fiéis a um deus, a um pensamento, a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas à fome irrespondível que lhes roía as entranhas, foram estripados, esfolados, queimados, gaseados, e os seus corpos amontoados tão anónimamente quanto haviam vivido, ou as suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória. Às vezes, por serem de uma raça, outras por serem de uma classe, expiaram todos os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência de haver cometido. Mas também aconteceu e acontece que não foram mortos. Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer, aniquilando mansamente, delicadamente, por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de deus. Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror, foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha há mais de um século e que por violenta e injusta ofendeu o coração de um pintor chamado Goya, que tinha um coração muito grande, cheio de fúria e de amor. Mas isto nada é, meus filhos, apenas um episódio, um episódio breve, nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis) de ferro e de suor e sangue e algum sémen a caminho do mundo que vos sonho. Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la. É isto o que mais importa - essa alegria. Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto não é senão essa alegria que vem de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém está menos vivo ou sofre ou morre para que um só de vós resista um pouco mais à morte que é de todos e virá. Que tudo isto sabereis serenamente, sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição, e sobretudo sem desapego ou indiferença, ardentemente espero. Tanto sangue, tanta dor, tanta angústia, um dia-mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -não hão-de ser em vão. Confesso que muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos de opressão e crueldade, hesito por momentos e uma amargura me submerge inconsolável. Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam, quem ressuscita esses milhões, quem restitui não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado? Nenhum juízo final, meus filhos, pode dar-lhes aquele instante que não viveram, aquele objecto que não fruíram, aquele gesto de amor, que fariam "amanhã". E, por isso, o mesmo mundo que criemos nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa que não é só nossa, que nos é cedida para a guardarmos respeitosamente em memória do sangue que nos corre nas veias, da nossa carne que foi outra, do amor que outros não amaram porque lho roubaram.
Quero, um dia, poder ler isto aos meus filhos. Quero poder sussurar-lhes à noite que a vida vai ser dificil mas que vale cada segundo. Que espero que sejam corajosos, livres e justos. Que não estão autorizados a desistir de sonhar. Espero que cresçam com a verdade fundida na alma e que o coração bata descompassadamente com cada iniquidade que presenciem. Que sejam pessoas de riso fácil e lágrimas solidárias. Que compreendam o real valor de cada queda e, por isso, estendam sempre as mãos a quem precisa. Quero conhecer os filhos que ainda não tenho. Ficar surpreendida porque não são exactamente como eu os sonhei mas como são, orgulhosa porque são melhores que eu, triste porque vão cambalear demasiadas vezes no caminho. Queria que acreditassem na magia do amor, que aprendam a entregar-se inteiros (nunca menos do que eles todos), que sejam leais para quem a eles se entregar, em tempos de amizade ou de guerra. Quero muito poder embalá-los, aninhá-los, passar-lhes as mãos pelo cabelo, beijar-lhes a testa e dizer-lhes que os amo mais do que o tempo de uma vida e, que sim, viverei enquanto eles viverem e enquanto os seus filhos viverem e os filhos dos seus filhos. E que, se algum dia me perder no caminho e deixar de lá estar, alguém vai agarrá-los no exacto ponto onde os deixei e ensiná-los a dar os próximos passos. Que nunca caminharão sozinhos.

sexta-feira, outubro 02, 2009

Palavras roubadas

TEMPO DE AMOR (SAMBA DO VELOSO) Vinícius de Moraes Ah, bem melhor seria Poder viver em paz Sem ter que sofrer Sem ter que chorar Sem ter que querer Sem ter que se dar Mas tem que sofrer Mas tem que chorar Mas tem que querer Pra poder amar Ah, mundo enganador Paz não quer mais dizer amor Ah, não existe Coisa mais triste que ter paz E se arrepender E se conformar E se proteger De um amor a mais O tempo de amor É tempo de dor O tempo de paz Não faz nem desfaz Ah, que não seja meu O mundo onde o amor morreu