sexta-feira, janeiro 30, 2009

Robin dos Bosques

Uma das minhas colegas de trabalho:
«Mas se o homem roubou aos ingleses para distribuir pelos portugueses, não estaremos a ser ingratos?»
Estamos. Claro que estamos. Só hoje é que percebi. Este gajo devia ser o nosso herói!
Está bem, a sensação que temos todos é que é injusto o dinheiro ter ido só para a família. Bem lá no fundo temos uma pena secreta de não sermos primos, enteados ou afilhados do Sócrates. Somos mesquinhos, pá, porque não sobrou nada para o nosso lado.
Eu aqui me confesso: se nesta vida, alguém quiser bater à minha porta com 4 milhões, será nas vossas offshores, querida família, que eles irão aterrar. Não têm offshores? Ó meus queridos, nada de preocupações. Eu «Isaltinarei». Escondo-o na Suiça, em meu nome, mas é todo vosso. Pelo menos, é isso que irei jurar em tribunal. E só por isso, povo do meu país, mereço o vosso voto!

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Neverland

Nunca minto. Às vezes melhoro, 1 bocadinho só, as coisas.
Nunca desisto. De mim. Dos meus amigos. Dos sonhos.
Nunca ataco sem ser atacada. Quando me sinto atacada, sou temerária. E vingativa.
Nunca planeio.
Nunca me rendo.
Nunca sofro por antecipação. Se o sofrimento vier, logo penso no assunto.
Nunca sou muito controlada. Nem muito descontrolada. Não controlo.
Nunca recebo nenhum amigo na minha vida sem ser de alma aberta.
Nunca choro sem ser preciso. Preciso muitas vezes.
E nunca mais é mesmo nunca mais. Lamento.

domingo, janeiro 25, 2009

Stop!!!

Sem comentários. Não precisa. É fabuloso e reflecte, em muito, aquilo que são as minhas convicções geo-políticas (se tal coisa existir...) Obrigada, querídissima C., por teres partilhado comigo este vídeo.

O meu Deus

Faltam-me palavras para exprimir o nojo que este homem me provoca. Para quem não sabe, a criatura deste vídeo faz parte da única dissidência oficial ao Concílio Vaticano II. Ele e mais 4 foram considerados tão nefastos dentro da Igreja que o Papa João Paulo II os excomungou. Ontem, o Cardeal Ratzinger, um dos grandes derrotados do Concílio, decidiu reabilitar os 5. Devolveu-lhes novamente o título de Bispos. E tenciona dar-lhes "rebanhos".
Graças a Deus que não sou Católica. Graças a Deus que sou anti-clerical. Graças a Deus, fiz-me ateia. Graças a Deus que Deus não existe.

sábado, janeiro 24, 2009

A mulher de César

Ninguém escolhe a família. Dito isto, depois da declaração de imprensa que o nosso Primeiro acabou de fazer na Alfândega, nada ficou "claro". (alguém conseguiu contar quantas vezes a palavra foi repetida?)

Se se provar que o tio do Eng. Sócrates realmente lhe pediu para receber os promotores do empreendimento de Alcochete (e que ele acedeu), a mulher de César parece pouco séria.

Se se provar que o tio recebeu dinheiro de investidores ingleses e o escondeu em offshores e se se provar que foge ao Fisco (esta a mim parece-me "given"... mas vamos lá dar ao homem o benefício da dúvida que a mansão pode ter duas hipotecas em cima), a mulher de César também não sai muito bem na fotografia. Quanto mais não seja porque, perante tão óbvios e dúbios sinais de riqueza, o principal responsável político pela máquina fiscal, assobiou para o lado.

Se se provar que o priminho (gostei muito de ouvir o Eng. Sócrates dizer "o filho do meu tio", como se não fossem parentela) enviou 1 email a pedir uns tostõezinhos só porque fazia parte da família do Ministro do Ambiente, o dever do Eng. Sócrates é pô-lo na prisão. Ou a mulher de César não é, de todo, séria.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Gripada

Apanhada pela epidemia de gripe 1 mês depois do resto do país, passei o dia a cantarolar esta música, entre ataques assassinos de tosse. Ou a febre é alta ou estou à morte.

terça-feira, janeiro 13, 2009

O atrasadinho está de saída!

Memorable words
“The education issue ought to be discussed about.” Austin, Texas, 2000
“I’m sure something will pop into my head here in the midst of this press conference, with all the pressure of trying to come up with answer, but it hadn’t yet.” After he was asked to name his biggest mistake since 9/11, 2004
“If you want the facts, it’s a size ten shoe that he threw.” After Iraqi journalist Muntadar al-Zaidi hurled his shoe at him in December
“You know, if you find a person you’ve never seen before getting in a crop-duster that doesn’t belong to you, report it”. After being asked what security advice he had for Americans in the light of Anthrax attacks on Washington in 2001
“I remember meeting a mother of a child who was abducted by the North Koreans right here in the Oval Office.” Rose Garden news briefing last June
“Sometimes you misunderestimated me.” Summing up his relationship with the media at his last press conference yesterday
Source: Times archives

domingo, janeiro 11, 2009

Crónica do Crime

Tenho uma paixão assolapada por esta música. É um dos meus segredos inconfessáveis.
Existe uma versão cantada pelo Elvis. E uma original, do Del Shannon. A que eu mais gosto é esta, da Crónica do Crime.

terça-feira, janeiro 06, 2009

"A vaca desnutrida e anémica"...

somos nós, Portugal! Palavras duma colega de trabalho.
Alguém me consegue explicar como é que o nosso Primeiríssimo tem a lata de ir à tv numa noite dizer que "é cada vez mais provável um cenário de recessão" mas que não consegue apontar números e hoje o Banco de Portugal lança a bomba? São os dois atrasadinhos mentais, é? O nosso primeiríssimo gostará assim tanto de perpetuar a imagem de urso de curso comprado? "Em Setembro não se podia prever a dimensão da crise"? Valha-me Nossa Senhora de Agrela...aposto que até a Maya podia e o Tarot não é ensinado na FCUL...

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Insónia e afins

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando me dizem: "vem por aqui!" Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali... A minha glória é esta: Criar desumanidade! Não acompanhar ninguém. - Que eu vivo com o mesmo sem-vontade Com que rasguei o ventre à minha mãe Não, não vou por aí! Só vou por onde Me levam meus próprios passos... Se ao que busco saber nenhum de vós responde Por que me repetis: "vem por aqui!"? Prefiro escorregar nos becos lamacentos, Redemoinhar aos ventos, Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, A ir por aí... Se vim ao mundo, foi Só para desflorar florestas virgens, E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! O mais que faço não vale nada. Como, pois sereis vós Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem Para eu derrubar os meus obstáculos?... Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós, E vós amais o que é fácil! Eu amo o Longe e a Miragem, Amo os abismos, as torrentes, os desertos... Ide! Tendes estradas, Tendes jardins, tendes canteiros, Tendes pátria, tendes tectos, E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios... Eu tenho a minha Loucura ! Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura, E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios... Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém. Todos tiveram pai, todos tiveram mãe; Mas eu, que nunca principio nem acabo, Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo. Ah, que ninguém me dê piedosas intenções! Ninguém me peça definições! Ninguém me diga: "vem por aqui"! A minha vida é um vendaval que se soltou. É uma onda que se alevantou. É um átomo a mais que se animou... Não sei por onde vou, Não sei para onde vou - Sei que não vou por aí! José Régio, Cântigo Negro

Os meus mortos lá em Gaza...

Descendo de uma longa linhagem de bombistas-suicidas.
Não sei se já perderam algum dos vossos amores incondicionais nesta vida. Eu perdi todos. Sou a última pessoa viva da minha família.
Nunca conheci nenhum dos meus avós. Quando nasci, já todos tinham morrido.
As minhas avós lutaram muitissímo contra as fatwas que o destino lhes decretou: uma 12, a outra 15 anos. Morreram as duas de cancro da mama, numa guerra que nunca lhes deu hipótese nenhuma.
O meu avô paterno morreu com um ataque de asma, em parte por falta de assistência médica, em parte porque insistiu até ao fim que estava bem. Dele, além da capacidade de dormir em qualquer sitio, a qualquer hora, recebi também de herança uma bronquite asmática que precisou de 7 anos de vacinas para ficar controlada. Até ao dia...
Do meu avô materno, foi-me sempre dito que tinha morrido num acidente de caça. Era noite, estava escuro e frio, caiu a 1 poço, ninguém viu...Até ao dia em que enterrei o meu maninho, o único nesta família de gente com pouca apetência para a vida, a declarar com estrondo e consequência que não queria mais. O meu irmão suicidou-se. Mesmo. Sem desculpas nem tretas. Tinha 24 anos. E nesse dia, em que não me lembro de quase nada, lembro-me disso: a confissão envergonhada e escondida: "como o avô, tão novinhos os dois, pensei que soubesses..."
A minha mãe tinha morrido 9 anos antes. Soube que tinha cancro da mama e escolheu não lutar. Escondeu até ser impossível esconder. Até não haver cura nem redenção possível. Fê-lo num acto louco e bizarro de amor, por não querer transformar a minha vida e a do meu irmão na doença dela, para não nos fazer sofrer anos, para nunca a vermos transformar-se na doença e a doença a transformá-la a ela, como ela tinha visto a mãe, muitos anos antes. Fê-lo para nos dar paz e nunca nenhum de nós conseguiu encontrá-la.
A única irmã da minha mãe morreu menos de 1 ano depois dela. Estiveram doentes na mesma altura. E, confrontada com outra escolha impossível, também ela preferiu não viver. O meu "tio" ia deixá-la. Tinha reencontrado o "amor da vida dele" e ia embora. Na última noite que passou com ele, para salvar um amor desesperado e sem salvação, a minha tia engravidou. Pouco tempo depois, soube que também ela tinha cancro da mama. Se abortasse, podia lutar. Se levasse a gravidez até ao fim, estava perdida. Preferiu a minha priminha. Eu acho que foi para ficar mais um bocadinho dela no mundo. Até porque o mundo dela estava a extinguir-se. O meu tio voltou a casar, uns meses depois. A esta mulher, as minhas priminhas (existia outra, com 4 anos) chamaram a vida toda, mãe. Ela recortou, metodica e cruelmente, todas as fotografias da minha tia. A minha tia não existe. Assim. Quando penso nisso, é uma mártir de uma causa em vão...
O meu pai, de quem já falei aqui, morreu exactamente no segundo em que lhe disse que o meu irmão tinha morrido.Não foi do cancro que, oficialmente, acabou por lhe corroer o corpo 4 meses depois. Nestes meses de agonia entre um e outro, em que eu deixei de ser pessoa e alma, em que desci ao inferno mais profundo de mim sem ter a certeza de alguma vez conseguir voltar, o meu pai esteve sempre morto. À espera que lhe marcassem um dia e uma hora. Deus ou o Diabo. E a querer desesperadamente morrer, ao mesmo tempo que me fez jurar a mim, que viveria, custasse o que custasse. Porque, no dia em que eu morrer, não fica nada... Nenhuma memória destas vidas e destes amores. Nada.
Tenho pesadelos quase todas as noites. Choro muitas vezes. A maior parte sozinha mas, às vezes, com grandes amigos. Família. Não a que tive mas a que adoptei. E eles, com amor, são carpideiras do meu destino.
Se fosse palestiniana, estaria neste momento, a garantir com o Hamas, que Gaza será o inferno dos israelitas. Se fosse israelita, vingaria cada um dos meus mortos com sangue. Invertendo o Talmude, quem mata uma vida mata o mundo inteiro. Os meus mortos quiseram muito morrer. Os mortos de lá, em Israel como na Palestina, deixaram sem vida a vida dos que os amavam. Sem considerações geopolíticas ou históricas. E, para quem já perdeu tudo, perder a capacidade de respirar ou rir ou sonhar é coisa pouca. Hoje, os meus mortos lá em Gaza estão dos dois lados da barricada.