Descendo de uma longa linhagem de bombistas-suicidas.
Não sei se já perderam algum dos vossos amores incondicionais nesta vida. Eu perdi todos. Sou a última pessoa viva da minha família.
Nunca conheci nenhum dos meus avós. Quando nasci, já todos tinham morrido.
As minhas avós lutaram muitissímo contra as fatwas que o destino lhes decretou: uma 12, a outra 15 anos. Morreram as duas de cancro da mama, numa guerra que nunca lhes deu hipótese nenhuma.
O meu avô paterno morreu com um ataque de asma, em parte por falta de assistência médica, em parte porque insistiu até ao fim que estava bem. Dele, além da capacidade de dormir em qualquer sitio, a qualquer hora, recebi também de herança uma bronquite asmática que precisou de 7 anos de vacinas para ficar controlada. Até ao dia...
Do meu avô materno, foi-me sempre dito que tinha morrido num acidente de caça. Era noite, estava escuro e frio, caiu a 1 poço, ninguém viu...Até ao dia em que enterrei o meu maninho, o único nesta família de gente com pouca apetência para a vida, a declarar com estrondo e consequência que não queria mais. O meu irmão suicidou-se. Mesmo. Sem desculpas nem tretas. Tinha 24 anos. E nesse dia, em que não me lembro de quase nada, lembro-me disso: a confissão envergonhada e escondida: "como o avô, tão novinhos os dois, pensei que soubesses..."
A minha mãe tinha morrido 9 anos antes. Soube que tinha cancro da mama e escolheu não lutar. Escondeu até ser impossível esconder. Até não haver cura nem redenção possível. Fê-lo num acto louco e bizarro de amor, por não querer transformar a minha vida e a do meu irmão na doença dela, para não nos fazer sofrer anos, para nunca a vermos transformar-se na doença e a doença a transformá-la a ela, como ela tinha visto a mãe, muitos anos antes. Fê-lo para nos dar paz e nunca nenhum de nós conseguiu encontrá-la.
A única irmã da minha mãe morreu menos de 1 ano depois dela. Estiveram doentes na mesma altura. E, confrontada com outra escolha impossível, também ela preferiu não viver. O meu "tio" ia deixá-la. Tinha reencontrado o "amor da vida dele" e ia embora. Na última noite que passou com ele, para salvar um amor desesperado e sem salvação, a minha tia engravidou. Pouco tempo depois, soube que também ela tinha cancro da mama. Se abortasse, podia lutar. Se levasse a gravidez até ao fim, estava perdida. Preferiu a minha priminha. Eu acho que foi para ficar mais um bocadinho dela no mundo. Até porque o mundo dela estava a extinguir-se. O meu tio voltou a casar, uns meses depois. A esta mulher, as minhas priminhas (existia outra, com 4 anos) chamaram a vida toda, mãe. Ela recortou, metodica e cruelmente, todas as fotografias da minha tia. A minha tia não existe. Assim. Quando penso nisso, é uma mártir de uma causa em vão...
O meu pai, de quem já falei aqui, morreu exactamente no segundo em que lhe disse que o meu irmão tinha morrido.Não foi do cancro que, oficialmente, acabou por lhe corroer o corpo 4 meses depois. Nestes meses de agonia entre um e outro, em que eu deixei de ser pessoa e alma, em que desci ao inferno mais profundo de mim sem ter a certeza de alguma vez conseguir voltar, o meu pai esteve sempre morto. À espera que lhe marcassem um dia e uma hora. Deus ou o Diabo. E a querer desesperadamente morrer, ao mesmo tempo que me fez jurar a mim, que viveria, custasse o que custasse. Porque, no dia em que eu morrer, não fica nada... Nenhuma memória destas vidas e destes amores. Nada.
Tenho pesadelos quase todas as noites. Choro muitas vezes. A maior parte sozinha mas, às vezes, com grandes amigos. Família. Não a que tive mas a que adoptei. E eles, com amor, são carpideiras do meu destino.
Se fosse palestiniana, estaria neste momento, a garantir com o Hamas, que Gaza será o inferno dos israelitas. Se fosse israelita, vingaria cada um dos meus mortos com sangue. Invertendo o Talmude, quem mata uma vida mata o mundo inteiro. Os meus mortos quiseram muito morrer. Os mortos de lá, em Israel como na Palestina, deixaram sem vida a vida dos que os amavam. Sem considerações geopolíticas ou históricas. E, para quem já perdeu tudo, perder a capacidade de respirar ou rir ou sonhar é coisa pouca. Hoje, os meus mortos lá em Gaza estão dos dois lados da barricada.
2 comentários:
Tal como a S. disse ontem, considero-te uma das mais corajosas resistentes deste mundo. E também partilho da opinião dela, de que esse teu sorriso e esse teu brilho no olhar são admiráveis. Podemos não to dizer muitas vezes, mas a verdade é que és um grande exemplo de força para todos nós, os teus amigos...
Por isso, daqui do meu sofá e sempre que precisares, envio-te o maior sorriso do mundo, como agradecimento por teres vindo aterrar na minha vida.
Também me entristeço por Gaza...
Bj,
PF
Hoje disse-te que comecei a ler o teu blog... A porta estava entreaberta e por isso fui entrando devagar.
São quase 3h da manhã e acabei de ler este post. As lágrimas rolaram... Não é a primeira vez, tu sabes... Concerteza não será a última!
Adoro-te e tenho-te por minha heroína - mulher corajosa.
Do sofá da P. veio o maior sorriso do mundo, da minha cama (que já me deitei) vem o maior dos beijos!
SD
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