Estou a amar-te como o frio
corta os lábios.
A arrancar a raiz
ao mais diminuto dos rios.
A inundar-te de facas,
de saliva esperma lume.
Estou a rodear de agulhas
a boca mais vulnerável
A marcar sobre os teus flancos
o itinerário da espuma
Assim é o amor: mortal e navegável.
Eugénio de Andrade
sábado, julho 30, 2011
O sono mais perfeito é aquele que é partilhado com uma pessoa amada*
Perdoei o tempo. O que existiu antes de ti e o que virá depois, quando deixarem de existir dias e noites e ventos de penumbra cobrirem a terra. Ouvir-se-ão gemidos nascidos das pedras e murmúrios ancestrais, que viajam em mares sem marés. No meu tempo sem tempo, rememoram-se momentos mas olvidou-se a memória e todos os que caminham fazem-no curvados. Quando não fores nem estiveres, deixar-me-ás sombra e relógio de areia, ampulheta.
Perdoei o tempo. Cumpri cada hora até chegar aqui como uma condenação, prisão perpétua sem luz, existência sem ser vida. Sinto o vento e és tu, fustiga as ruas e respiro arrepiada, não te posso repetir palavras de amor porque as conheces a todas. São nossas as madrugadas em que te sinto e não estás, em que nos abraçamos e somos pensamento sem matéria, mãos dadas e pés que se agitam à distância de uma cidade.
Perdoei o tempo. São demasiados os segundos em que somos raiva e trovoada, reprimes beijos, és homem de surpresas e sustos, coração que suspendes, paixão sentida com dor. Temos um deserto castanho de almofadas e mantas e aqui nos cobrimos, desnudamos e regressamos. É teu o sorriso-poema-mundo, olhos imensos que são pêndulos e livros e palavras gritadas.
E é este tempo, aqui e agora, debaixo das estrelas, contigo. Milhões de anos que sonho jazendo em flores acorrentadas. Que te fazem vir das profundezas do oceano, estranho como um anjo. Chove. Corro para o teu coração para estar perto, beijamo-nos e é meu o céu que se desmorona nos teus braços…
Tu és a minha vida.
* D.H. Lawrence, Filhos e Amantes
O preço de um alimento não é equivalente ao valor de uma vida.
"Todos os néscios confundem valor e preço"
Antonio Machado y Ruiz
Antonio Machado y Ruiz
Em mim, o medo é um rio...
Não consigo adormecer. De tempos a tempos, sinto-os a infiltrarem-se nas paredes, a rastejarem pelo chão, a debaterem-se no telhado, adoptando a forma de um gato que mia, a janela bate, agora já entraram no meu quarto e instalam-se. Sentam-se na minha cama, gelados e fixos, uma brisa no cabelo, os pelos dos braços que se eriçam. São olhos que tudo vêem, mãos que não têm dedos, caras que se desfazem e escorrem, como se a substância primeva do medo fosse um rio lodoso e indistinto. Perseguem-me em labirintos e tocam um batuque ritmado no ventilador, agarram-me os pés quando tropeço, agitam-se nos quadros e sei que nunca me darão descanso. Tenho monstros debaixo da cama e dentro do corpo. Nasceram em noites sem lua, nas lajes da eira a caminho do rio, uivam e saltam e esticam-se, as histórias que perpetuam a minha vigília são uma sucessão de prodígios inesgotáveis. Cresceram comigo. Gritos alados que lanço à escuridão, perdidos na voz que calo. Aproxima-se Agosto e toda eu tremo. Antes das palavras, confessava-me à nudez tranquila das águas. E tu existias.
quinta-feira, julho 28, 2011
quarta-feira, julho 27, 2011
E nada mais houve depois dela...
Uma palavra. Disse-a. Amo-te - uma palavra breve. Quantos milhões de palavras eu disse durante a vida. E ouvi. E pensei. Tudo se desfez. Palavras sem inteira significação em si, o professor devia ter razão. Palavras que remetiam umas para as outras e se encostavam umas às outras para se aguentarem na sua rede aérea de sons. Mas houve uma palavra - meu Deus. Uma palavra que eu disse e repercutiu em ti, palavra cheia, quente de sangue, palavra vinda das vísceras, da minha vida inteira, do universo que nela se conglomerava, palavra total. Todas as outras palavras estavam a mais e dispensavam-se e eram uma articulação ridícula de sons e mobilizavam apenas a parte mecânica de mim, a parte frágil e vã. Palavra absoluta no entendimento profundo do meu olhar no teu, palavra infinita como o verbo divino. Recordo-a agora - onde está? Como se desfez? Ou não desfez mas se alterou e resfriou e absorveu apenas a fracção de mim onde estava a ternura triste, o conforto humilde, a compaixão. Não haverá então uma palavra que perdure e me exprima todo para a vida inteira? E não deixe de mim um recanto oculto que não venha à sua chamada e vibre nela desde os mais finos filamentos de si? Uma palavra. Recupero-a agora na minha imaginação doente. Amo-te. Na intimidade exclusiva e ciumenta do nosso olhar mútuo e encantado. Fecha-nos o lençol na claridade difusa do amanhecer, estás perto de mim no intocável da tua doçura. Frágil de névoa. Fímbria de sorriso e de receio, de pavor, no meu olhar embevecido. Uma palavra. A primeira que em toda a minha vida me esgotou o ser. A que foi tão completa e absorvente, que tudo o mais foi um excesso na criação. Deus esgotou em mim, na minha boca, todo o prodígio do seu poder. Ao princípio era a palavra. Eu a soube. E nada mais houve depois dela.
Vergílio Ferreira, 'Para Sempre'
Para quem gosta de ler, raramente há um livro da nossa vida. Ou então há, mas anunciamo-lo baixinho com culpa retorcida, evitamos as declarações categóricas, sentimo-nos a atraiçoar todos os outros que fizeram de nós um bocadinho mais quem somos.
Pediram-me num curso, não há muito tempo atrás, que escrevesse sobre um livro que me tivesse marcado e explicasse porquê. Não consegui completar o exercício. Escrevi uma série de banalidades estúpidas sobre os livros em geral, mas senti-me desleal para com todos eles porque não consegui ser hierarquicamente leal para com nenhum.
Chegada aqui, o que vou escrever a seguir tem a simplicidade do racíocinio das crianças: gosto muito do Virgílio. Do muito que gosto, o "Para sempre" é o livro de que gostei mais. E dentro dele, esta é a "minha" passagem. A que recordo cada vez que penso neste livro, embora não a saiba de cor e esteja sempre a relê-la. E ainda bem. Há palavras a que podemos voltar uma vida inteira e, ainda assim, não se esgotam. E há palavras, como "amo-te", que com o seu poder inesgotável, nos esgotam o ser. Exactamente como ele diz.
terça-feira, julho 26, 2011
"Um olhar sereno alegra o coração." *
A serenidade não é feita nem de troça nem de narcisismo, é conhecimento supremo e amor, afirmação da realidade, atenção desperta junto à borda dos grandes fundos e de todos os abismos; é uma virtude dos santos e dos cavaleiros, é indestrutível e cresce com a idade e a aproximação da morte. É o segredo da beleza e a verdadeira substância de toda a arte.
Hermann Hesse, O Jogo das Contas de Vidro
* Provérbios, 15:30
"Nós nunca nos realizamos. Somos dois abismos - um poço fitando o céu." *
Tenho mais pena dos que sonham o provável, o legítimo e o próximo, do que dos que devaneiam sobre o longínquo e o estranho. Os que sonham grandemente, ou são doidos e acreditam no que sonham e são felizes, ou são devaneadores simples, para quem o devaneio é uma música da alma, que os embala sem lhes dizer nada. Mas o que sonha o possível tem a possibilidade real da verdadeira desilusão. Não me pode pesar muito o ter deixado de ser imperador romano, mas pode doer-me o nunca ter sequer falado à costureira que, cerca da nove horas, volta sempre a esquina da direita. O sonho que nos promete o impossível já nisso nos priva dele, mas o sonho que nos promete o possível intromete-se com a própria vida e delega nela a sua solução. Um vive exclusivo e independente; o outro submisso das contingências do que acontece.
Desde que possamos considerar este mundo uma ilusão e um fantasma, poderemos considerar tudo que nos acontece como um sonho, coisa que fingiu ser porque dormíamos. E então nasce em nós uma indiferença subtil e profunda para com todos os desaires e desastres da vida.
Os que morrem viraram uma esquina, e por isso os deixámos de ver; os que sofrem passam perante nós, se sentimos, como um pesadelo, se pensamos, como um devaneio ingrato. E o nosso próprio sofrimento não será mais que esse nada. Neste mundo dormimos sobre o lado esquerdo, e ouvimos nos sonhos a existência opressa do coração.
Mais nada... Um pouco de sol, um pouco de brisa, umas árvores que emolduram a distância, o desejo de ser feliz, a mágoa de os dias passarem, a ciência sempre incerta e a verdade sempre por descobrir... Mais nada, mais nada... Sim, mais nada...
* Entre abismos e sonhos... Fernando Pessoa, no título e nos excertos.
segunda-feira, julho 04, 2011
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