sábado, julho 30, 2011

O sono mais perfeito é aquele que é partilhado com uma pessoa amada*

Perdoei o tempo. O que existiu antes de ti e o que virá depois, quando deixarem de existir dias e noites e ventos de penumbra cobrirem a terra. Ouvir-se-ão gemidos nascidos das pedras e murmúrios ancestrais, que viajam em mares sem marés. No meu tempo sem tempo, rememoram-se momentos mas olvidou-se a memória e todos os que caminham fazem-no curvados. Quando não fores nem estiveres, deixar-me-ás sombra e relógio de areia, ampulheta.

Perdoei o tempo. Cumpri cada hora até chegar aqui como uma condenação, prisão perpétua sem luz, existência sem ser vida. Sinto o vento e és tu, fustiga as ruas e respiro arrepiada, não te posso repetir palavras de amor porque as conheces a todas. São nossas as madrugadas em que te sinto e não estás, em que nos abraçamos e somos pensamento sem matéria, mãos dadas e pés que se agitam à distância de uma cidade.

Perdoei o tempo. São demasiados os segundos em que somos raiva e trovoada, reprimes beijos, és homem de surpresas e sustos, coração que suspendes, paixão sentida com dor. Temos um deserto castanho de almofadas e mantas e aqui nos cobrimos, desnudamos e regressamos. É teu o sorriso-poema-mundo, olhos imensos que são pêndulos e livros e palavras gritadas.

E é este tempo, aqui e agora, debaixo das estrelas, contigo. Milhões de anos que sonho jazendo em flores acorrentadas. Que te fazem vir das profundezas do oceano, estranho como um anjo. Chove. Corro para o teu coração para estar perto, beijamo-nos e é meu o céu que se desmorona nos teus braços…

Tu és a minha vida.



* D.H. Lawrence, Filhos e Amantes

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