quarta-feira, julho 27, 2011

E nada mais houve depois dela...

Uma palavra. Disse-a. Amo-te - uma palavra breve. Quantos milhões de palavras eu disse durante a vida. E ouvi. E pensei. Tudo se desfez. Palavras sem inteira significação em si, o professor devia ter razão. Palavras que remetiam umas para as outras e se encostavam umas às outras para se aguentarem na sua rede aérea de sons. Mas houve uma palavra - meu Deus. Uma palavra que eu disse e repercutiu em ti, palavra cheia, quente de sangue, palavra vinda das vísceras, da minha vida inteira, do universo que nela se conglomerava, palavra total. Todas as outras palavras estavam a mais e dispensavam-se e eram uma articulação ridícula de sons e mobilizavam apenas a parte mecânica de mim, a parte frágil e vã. Palavra absoluta no entendimento profundo do meu olhar no teu, palavra infinita como o verbo divino. Recordo-a agora - onde está? Como se desfez? Ou não desfez mas se alterou e resfriou e absorveu apenas a fracção de mim onde estava a ternura triste, o conforto humilde, a compaixão. Não haverá então uma palavra que perdure e me exprima todo para a vida inteira? E não deixe de mim um recanto oculto que não venha à sua chamada e vibre nela desde os mais finos filamentos de si? Uma palavra. Recupero-a agora na minha imaginação doente. Amo-te. Na intimidade exclusiva e ciumenta do nosso olhar mútuo e encantado. Fecha-nos o lençol na claridade difusa do amanhecer, estás perto de mim no intocável da tua doçura. Frágil de névoa. Fímbria de sorriso e de receio, de pavor, no meu olhar embevecido. Uma palavra. A primeira que em toda a minha vida me esgotou o ser. A que foi tão completa e absorvente, que tudo o mais foi um excesso na criação. Deus esgotou em mim, na minha boca, todo o prodígio do seu poder. Ao princípio era a palavra. Eu a soube. E nada mais houve depois dela.

Vergílio Ferreira, 'Para Sempre'


Para quem gosta de ler, raramente há um livro da nossa vida. Ou então há, mas anunciamo-lo baixinho com  culpa retorcida, evitamos as declarações categóricas, sentimo-nos a atraiçoar todos os outros que fizeram de nós um bocadinho mais quem somos.
Pediram-me num curso, não há muito tempo atrás, que escrevesse sobre um livro que me tivesse marcado e explicasse porquê. Não consegui completar o exercício. Escrevi uma série de banalidades estúpidas sobre os livros em geral, mas senti-me desleal para com todos eles porque não consegui ser hierarquicamente leal para com nenhum.
Chegada aqui, o que vou escrever a seguir tem a simplicidade do racíocinio das crianças: gosto muito do Virgílio. Do muito que gosto, o "Para sempre" é o livro de que gostei mais. E dentro dele, esta é a "minha" passagem. A que recordo cada vez que penso neste livro, embora não a saiba de cor e esteja sempre a relê-la. E ainda bem. Há palavras a que podemos voltar uma vida inteira e, ainda assim, não se esgotam. E há palavras, como "amo-te", que com o seu poder inesgotável, nos esgotam o ser. Exactamente como ele diz.

 

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