quinta-feira, abril 28, 2011

Viagens...

"Mesmo que a rota da minha vida me conduza a uma estrela, nem por isso fui dispensado de percorrer os caminhos do mundo."

José Saramago

quarta-feira, abril 13, 2011

We are destined to hold two truths

“You are right, in one sense, when you speak of honesty. An effort, anyway, with the usual human or feminine retractions. To retreat is not feminine, male, or trickery. It is a terror before utter destruction. What we analyze inexorably, will it die? Will June die? Will our love die, suddenly, instantaneously if you should make a caricature of it? Henry, there is danger in too much knowledge. You have a passion for absolute knowledge. That is why people will hate you.

And sometimes I believe your relentless analysis of June leaves something out, which is your feeling for her beyond knowledge, or in spite of knowledge. I often see how you sob over what you destroy, how you want to stop and just worship; and you do stop, and then a moment later you are at it again with a knife, like a surgeon.

What will you do after you have revealed all there is to know about June? Truth. What ferocity in your quest of it. You destroy and you suffer. In some strange way I am not with you, I am against you. We are destined to hold two truths. I love you and I fight you. And you, the same. We will be stronger for it, each of us, stronger with our love and our hate. When you caricature and nail down and tear apart, I hate you. I want to answer you, not with weak or stupid poetry but with a wonder as strong as your reality. I want to fight your surgical knife with all the occult and magical forces of the world.

I want to both combat you and submit to you, because as a woman I adore your courage, I adore the pain in engenders, I adore the struggle you carry in yourself, which I alone fully realize, I adore your terrifying sincerity. I adore your strength. You are right. The world is to be caricatured, but I know, too, how much you can love what you caricature. How much passion there is in you! It is that I feel in you. I do not feel the savant, the revealer, the observer. When I am with you, it is the blood I sense.

This time you are not going to awake from the ecstasies of our encounters to reveal only the ridiculous moments. No. You won’t do it this time, because while we live together, while you examine my indelible rouge effacing the design of my mouth, spreading like a blood after an operation (you kissed my mouth and it was gone, the design of it was lost as in a watercolor, the colors ran); while you do that, I seize upon the wonder that is brushing by (the wonder, oh, the wonder of my lying under you), and I bring it to you, I breathe it around you. Take it. I feel prodigal with my feelings when you love me, feelings so unblunted, so new, Henry, not lost in resemblance to other moments, so much ours, yours, mine, you and I together, not any man or any woman together.

What is more touchingly real than your room. The iron bed, the hard pillow, the single glass. And all sparkling like a Fourth of July illumination because of my joy, the soft billowing joy of the womb you inflamed. The room is full of the incandescence you poured into me. The room will explode when I sit at the side of your bed and you talk to me. I don’t hear your words: your voice reverberated against my body like another kind of caress, another kind of penetration. I have no power over your voice. It comes straight from you to me. I could stuff my ears ad it would find its way into my blood and make it rise.

I am impervious to the flat visual attack of things. I see your khaki shirt hung up on a peg. It is your shirt and I could see you in it — you, wearing a color I detest. But I see you, not the khaki shirt. Something stirs in me as I look at it, and it is certainly the human you. It is a vision of the human you revealing an amazing delicacy to me. It is your khaki shirt and you are the man who is the axis of my world now. I revolve around the richness of your being.

“Come closer to me, come closer. I promise you it will be beautiful.”

You keep your promise.

Listen, I do not believe that I alone feel that we are living something new because it is new to me. I do not see in your writing any of the feelings you have shown me or any of the phrases you have used. When I read your writing, I wondered, What episode are we going to repeat?

You carry your vision, and I mine, and they have mingled. If at moments I see the world as you see it (because they are Henry’s whores I love them), you will sometimes see it as I do.”



Anais Nin, carta para Henry Miller

Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo eu morrerei contigo *

                                                  Gustav Klimt, O Beijo


É o beijo desta madrugada, entre dois sonhos, que gostaria de prolongar eternamente. Redimimo-nos e reencontramo-nos vezes sem conta, demasiadas já, acabámos de nos começar. São tantas, que começo a achar que fazemos de propósito, só pelo prazer de nos reinventarmos em princípios. Repetimos primeiros beijos de mãos entrelaçadas. E não há mais ninguém no mundo capaz de me fazer acreditar que, em cada beijo, fazemos amor e nos entregamos ao destino. Hoje, que voltei à tranquilidade furiosa do teu toque, é o teu sabor que trago ainda nos lábios. És tu. Debaixo das estrelas que se despedem, embalado pelo sono e pelo silêncio.


* Herberto Helder

sexta-feira, abril 08, 2011

Everything that I know... I know only because I love.*

Não sei se acontece a toda a gente. A mim acontece(u)-me algumas vezes, talvez uma dezena na vida, não mais. O momento que muda tudo. Sentimo-lo com cada bocadinho da nossa pele e sabemo-lo absoluto, ainda que ninguém mais tenha dado conta. Levitamos e estamos a pairar sobre nós próprios e olhamos dormentes enquanto o precipício se aproxima. Foi assim, esta noite, quando se fechou a porta do elevador.


* Lev Tolstoi

quinta-feira, abril 07, 2011

Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.


Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.


Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi


desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.

Manuel Alegre


a precisar que alguém me conte longamente o que já foi e o que será...

quarta-feira, abril 06, 2011

uma história de livros...

 - Pois bem, esta é uma história de livros.
 - De livros?
 - De livros malditos, do homem que os escreveu, de uma personagem que se escapou das páginas de um romance para o queimar, de uma traição e de uma amizade perdida. É uma história de amor, de ódio e dos sonhos que vivem na sombra do vento.

Carlos Ruiz Záfon, A sombra do vento


Venho tarde e a más horas para recomendações. Aliás, este livro já me havia sido sugerido uma e outra vez, mas como teve um percurso atribulado para regressar às minhas mãos (e, ainda assim, não o exemplar que emprestei, que acabou perdido no Cemitério dos Livros Esquecidos de alguém), só agora o devoro. Se tivesse o menor talento para a escrita, seria uma história parecida a que gostaria de contar. Encantada, com memória e amores intemporais, livros e magia a escorrer das páginas.

Ver claro

Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.


Eugénio de Andrade, Os Sulcos da Sede

domingo, abril 03, 2011

boa sorte (e boa noite...)

“acho só que me maltratas por não aceitares quem sou e ao mesmo tempo não deixares de gostar de mim”

 
Amores correspondidos e felizes são anacronismos milagrosos. No meio de tanta gente disponível (ou nem por isso), carente e interessante, acreditamos que podemos encontrar quem seja capaz de nos incendiar com um olhar ou um toque, a quem queiramos tanto ou mais bem do que aquele que nos queremos, cuja inexistência na nossa vida provoque uma dor tão esmagadora, tão absoluta, que o arrastar dos dias é, de facto, eternidade no inferno. Temos de descobrir quem, num mundo imenso, se transubstancie e seja casa, luz e riso. Quem nos sinta de forma idêntica e nos deseje com fúria e bem-querer. Somadas as intenções, faltará ainda o mais difícil. Duas pessoas que se amam nem sempre distribuem felicidade mútua. Extremados os sentimentos, somos o melhor e o pior de nós. Não há nenhum grande amor que não nos exponha à mais profunda fragilidade e insegurança, que não nos dispa por inteiro. Esperamos e exigimos esforços sobre-humanos de entendimento, tolerância e paciência e mesmo assim, sentimos a insuficiência de qualquer esforço como uma agressão propositada. Por definição, sabemo-nos sempre mais amantes do que o outro e essa certeza tortura cada minuto da nossa existência. Fazer e querer bem a alguém, com generosidade e despojamento, é um exercício que tem tanto de sublime como de masoquista. Duas pessoas que se gostam são sempre duas unidades. E unicidades. Por maior que seja a afinidade das almas, que nos adentremos na essência do universo de outrem, nunca nos perdemos verdadeiramente. Negociamos, capitulamos ocasionalmente, sacrificamo-nos sem nos ser pedido. Choramos.

 
No sítio onde me aninhei esta semana, longe dos braços de quem gosto, questiono a sabedoria de insistir num amor incapaz de me fazer feliz…

sábado, abril 02, 2011

Se amanhã acordasse com força de vontade para mudar tudo o que não gosto em mim ou na minha vida, qual é que era a pior coisa que me podia acontecer?

sexta-feira, abril 01, 2011

"Deixem-me só nas águas, como o rasto da lua ou a alga fria"

Medi o salto e o mundo antes de me atirar.
Assim, não há ninguém que me derrote:
Afogado ou flutuante, hei-de chegar!

P'lo amor de Deus, não me deitem a mão!
Já pus sal na garganta para a morte:
Quem se sabe salgar não erra o Norte,
Tem consigo o destino e a duração.

Calem a sereia dos nevoeiros,
Que eu apalpo a noite, sinto vagas dentro
E movo-me nos ventos verdadeiros
E conheço as funduras, se lá entro.

Apaguem os faróis p'la costa fora,
Cortem todos os cabos, à cautela -
Que eu não sou nada: aceito a minha hora,
Encho-a como o navio a sua vela.

E vou, lavado em mar e enxuto em ossos,
Buscar a minha estrela aos céus de Oeste:
De tanta água, levo os olhos grossos;

A tristeza de ser a alma me veste.
Nunca fui senão mar de coisa peluda,
Mar numas veias cheias de ânsia
De o derramar na superfície muda

Que está à minha espera desde a infância.
Sou isso só, isso deveras -
Como as aves, que têm no voo a própria lei,
E como a pedra é pedra e as feras feras;

Elas não sabem, mas eu sei.
Ah! (ia-me esquecendo) sou também
O mandado do mar a dizer isto:
Que fui um rio até à minha Mãe

E dela para cá, sou um pobre de Cristo,
Um homem, forte apenas no mandato,
Só grande porque o mar me penetrou:
No mais mísero e nu; o único fato

É a pele que o pecado me emprestou.
Dito o que - deixem-me só nas águas,
Como o rasto da lua ou a alga fria,
E empreguem melhor as vossas mágoas:

Esse destino me enche de alegria.
Não ocupem comigo os pescadores
Nem mergulhem a sonda à latitude
Em que é uso de bordo atirar flores

Ao capitão, morto em refrega rude.
Há tanta gente aí para salvar!
Tirem-me essa ridícula cortiça:
As espumas me aquecem se eu gelar;

De terra nem saudades nem cobiça.
Ah! mas ao menos espalho-me!
Ao menos sou autêntico e salino!
Se tenho frio, há musgos: agasalha-me;
Sou um bocado podre e outro divino.

(..)

Vitorino Nemésio
As sombras também falam. As que se erguem da noite e marcham ao meu encontro, as que vivem dentro de mim e invadem a minha cama, as que correm geladas no meu sangue e me fazem pensar em ti.

Nas coisas que nunca dissemos.

Tudo o que fomos antes do dia em que acordei de coração electrificado, a batida tão violenta que nunca mais voltei a sonhar sem susto e assombro. És tanto quem eu sou agora como naquele tempo, em que não conseguia imaginar uma alma que vagueasse na negritude, incumprida. Pensei noutras palavras e quase que as plagiei aqui, sabes? não porque a ti te seja mais fácil perceber mas porque as minhas andam há tantos séculos desencontradas de quem sou, que não sei se me reconhecerias nelas. Respiro devagar e recordo. Preciso de saber que haverá sempre um lugar onde guardamos a última frase que ouvi, o abraço que ficou suspenso, em que nos retomamos e reencontramos.

Não sei se quem pensou em sombras dizentes te viu a ti e a todos os que se foram mas são perpétuos, ou se, em cada um de nós, são distintos os momentos que nos marcam o corpo. Tenho tantas saudades. De todas as conversas que, ainda hoje, sou capaz de reproduzir em sussurros quando estou sozinha, das que imagino e nunca serão ditas, das que me fizeste sonhar enquanto te deixavas morrer.

Sempre que desfio o passado revejo a eternidade do teu sorriso. Tens cinco, dez, quinze e vinte anos e essa idade perene, que te atribuí na memória, e que é insensível à passagem do tempo. De todas as vozes-sombras que me acompanham, a tua é a única indelével e absoluta.

As sombras também falam. São as palavras de alguém que roubo, sabes como sou imperfeita e falível, mas dada a actos de contrição. Será outra alma e outra voz, não é em ti que pensa, quem escreveu viverá numa escuridão própria. Na vida que vivo sem ti, há uma laranjeira e gatos lânguidos no quintal, uma estante de livros por ler, a esperança inquebrantável no próximo amanhecer. E tu. Enlaçado ao meu coração desde o dia em que nasceste até ao dia em que morrerei.