sexta-feira, abril 01, 2011

As sombras também falam. As que se erguem da noite e marcham ao meu encontro, as que vivem dentro de mim e invadem a minha cama, as que correm geladas no meu sangue e me fazem pensar em ti.

Nas coisas que nunca dissemos.

Tudo o que fomos antes do dia em que acordei de coração electrificado, a batida tão violenta que nunca mais voltei a sonhar sem susto e assombro. És tanto quem eu sou agora como naquele tempo, em que não conseguia imaginar uma alma que vagueasse na negritude, incumprida. Pensei noutras palavras e quase que as plagiei aqui, sabes? não porque a ti te seja mais fácil perceber mas porque as minhas andam há tantos séculos desencontradas de quem sou, que não sei se me reconhecerias nelas. Respiro devagar e recordo. Preciso de saber que haverá sempre um lugar onde guardamos a última frase que ouvi, o abraço que ficou suspenso, em que nos retomamos e reencontramos.

Não sei se quem pensou em sombras dizentes te viu a ti e a todos os que se foram mas são perpétuos, ou se, em cada um de nós, são distintos os momentos que nos marcam o corpo. Tenho tantas saudades. De todas as conversas que, ainda hoje, sou capaz de reproduzir em sussurros quando estou sozinha, das que imagino e nunca serão ditas, das que me fizeste sonhar enquanto te deixavas morrer.

Sempre que desfio o passado revejo a eternidade do teu sorriso. Tens cinco, dez, quinze e vinte anos e essa idade perene, que te atribuí na memória, e que é insensível à passagem do tempo. De todas as vozes-sombras que me acompanham, a tua é a única indelével e absoluta.

As sombras também falam. São as palavras de alguém que roubo, sabes como sou imperfeita e falível, mas dada a actos de contrição. Será outra alma e outra voz, não é em ti que pensa, quem escreveu viverá numa escuridão própria. Na vida que vivo sem ti, há uma laranjeira e gatos lânguidos no quintal, uma estante de livros por ler, a esperança inquebrantável no próximo amanhecer. E tu. Enlaçado ao meu coração desde o dia em que nasceste até ao dia em que morrerei.

Um comentário:

Apple disse...

Tinha saudades de te ler e de sentir a alma cheia pelas palavras que teces assim, tão plenas de uma beleza que dói.