sexta-feira, abril 01, 2011

"Deixem-me só nas águas, como o rasto da lua ou a alga fria"

Medi o salto e o mundo antes de me atirar.
Assim, não há ninguém que me derrote:
Afogado ou flutuante, hei-de chegar!

P'lo amor de Deus, não me deitem a mão!
Já pus sal na garganta para a morte:
Quem se sabe salgar não erra o Norte,
Tem consigo o destino e a duração.

Calem a sereia dos nevoeiros,
Que eu apalpo a noite, sinto vagas dentro
E movo-me nos ventos verdadeiros
E conheço as funduras, se lá entro.

Apaguem os faróis p'la costa fora,
Cortem todos os cabos, à cautela -
Que eu não sou nada: aceito a minha hora,
Encho-a como o navio a sua vela.

E vou, lavado em mar e enxuto em ossos,
Buscar a minha estrela aos céus de Oeste:
De tanta água, levo os olhos grossos;

A tristeza de ser a alma me veste.
Nunca fui senão mar de coisa peluda,
Mar numas veias cheias de ânsia
De o derramar na superfície muda

Que está à minha espera desde a infância.
Sou isso só, isso deveras -
Como as aves, que têm no voo a própria lei,
E como a pedra é pedra e as feras feras;

Elas não sabem, mas eu sei.
Ah! (ia-me esquecendo) sou também
O mandado do mar a dizer isto:
Que fui um rio até à minha Mãe

E dela para cá, sou um pobre de Cristo,
Um homem, forte apenas no mandato,
Só grande porque o mar me penetrou:
No mais mísero e nu; o único fato

É a pele que o pecado me emprestou.
Dito o que - deixem-me só nas águas,
Como o rasto da lua ou a alga fria,
E empreguem melhor as vossas mágoas:

Esse destino me enche de alegria.
Não ocupem comigo os pescadores
Nem mergulhem a sonda à latitude
Em que é uso de bordo atirar flores

Ao capitão, morto em refrega rude.
Há tanta gente aí para salvar!
Tirem-me essa ridícula cortiça:
As espumas me aquecem se eu gelar;

De terra nem saudades nem cobiça.
Ah! mas ao menos espalho-me!
Ao menos sou autêntico e salino!
Se tenho frio, há musgos: agasalha-me;
Sou um bocado podre e outro divino.

(..)

Vitorino Nemésio

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