Seems like so long ago now
But I can still remember those feelings
Of being left alone with myself
Sitting in the garden
Watching our house burn
Knowing I couldn't help it
It always had to end in a big statement like that
We were always so intense
Out of control
We never understood what we had
Never knew how to deal with it
Always tearing at each other
The violence and the shame
Banging my head against the wall
Wanting to explode
And it was my idea
And I put you there
I lied and said I didn't want you
You were running to someone else
Breaking the spell
Being able to see me for what I really was
And then the flames
Wanted you
Make me feel like no man in the world wanted you
Still feel the flame
Still feel the cold
Still feel the flame
Gets so cold around the stove
They still reach for me
Where you gonna go now
They still reach for me
Where you gonna go now
Made you feel like no man in the world wanted you
Made me feel like no woman in the world wanted me
Still feel the flame
Some days it seems I've left those feelings so far behind
Still feel the cold
But they're always there, waiting
Still feel the flame
Tempting, trying to release you
It's so cold around the stove
Don't believe, don't cherish your pretence
They still reach for me
You strike a match
Where you gonna go now
The thrill of having nothing
They still reach for me
The smell of the flames
Where you gonna go now
Made me feel like no man in the world wanted you
Made me feel like no woman in the world wanted me
Tindersticks
(se correu tudo bem, deve ser possível ouvi-la na listinha aí do lado)
quinta-feira, março 31, 2011
quarta-feira, março 30, 2011
Não sei, amor, sequer, se te consinto ou se te inventas, brilhas, adormeces nas palavras sem carne em que te minto a verdade intemida em que me esqueces. Não sei, amor, se as lavas do vulcão nos lavam, veras, ou se trocam tintas dos olhos ao cabelo ou coração de tudo e de ti mesma. Não que sintas outra coisa de mais que nos feneça; mas só não sei, amor, se tu não sabes que sei de certo a malha que nos teça, o vento que nos leves ou nos traves, a mão que te nos dê ou te nos peça, o princípio de sol que nos acabes.
Pedro Tamen
Viverei sempre no assombro do mar. Tu também. Tantos anos depois, sei que era Junho. Pedes que te aperte um bocadinho mais. Tenho medo, corre-me vento pelo corpo, aperto e sabe-me tão bem. Levas-nos para um dos meus sitios preferidos, posso jurar que nunca to tinha confessado. Adivinhação pura. Adoro o cheiro desta noite, acho que são jasmins e sal, o mar é metade deste miradouro. Do outro agoniza um rio, está prestes a diluir-se mas é tudo harmónico, o reflexo das luzes da cidade e os farois a pairarem ao longe, há traineiras que se despedem debaixo da lua e são perseguidas por gaivotas.
- Se não parares de sorrir não te vou conseguir beijar.
Faço uma tentativa de seriedade. O céu ilumina-se de relâmpagos e também tu sorris sem parar. É alto, penso. Não resisto. Sei-me a sorrir novamente.
Estás perto e tão quente que consigo sentir-te o calor ainda antes de me tocares, sou um único arrepio, atropelada pelo coração.
- Se não sorrires, não sei se quero ser beijada. E digo-o tão baixo que durante um segundo não sei se me ouviste, aproximas-te devagarinho e caem-me na pele as primeiras gotas. Idealizei tanto este beijo e quando os lábios se encontram envergonho-me da avareza dos meus sonhos. Somos varridos pela chuva mas abriu-se-me o mundo e o tempo nos teus olhos. Deslumbro-me. E sei que, até ao final dos dias, sentirei sempre a assombração das águas.
terça-feira, março 29, 2011
segunda-feira, março 28, 2011
domingo, março 27, 2011
É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.
- Levo uma vida monótona. Eu caço galinhas e os Homens caçam-me a mim. Todas as galinhas são iguais e todos os Homens são iguais. Por isso me aborreço um pouco. Mas, se tu me cativares, será como se o Sol iluminasse a minha vida. Distinguirei de todos os passos, um novo ruído de passos. Os outros passos fazem-me esconder debaixo da terra. Os teus hão-de atrair-me para fora da toca, como uma música. E depois, olha! Vês lá adiante os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me dizem nada. E é triste. Mas os teus cabelos são cor de oiro. Por isso, quando me tiveres cativado, vai ser maravilhoso. Como o trigo é doirado, fará lembrar-me de ti. E hei-de amar o barulho do vento através do trigo...A raposa calou-se e olhou por muito tempo para o principezinho.
- Cativa-me, por favor, disse ela.
- Tenho muito gosto, respondeu o principezinho, mas falta-me tempo. Preciso de descobrir amigos e conhecer outras coisas.
- Só se conhecem as coisas que se cativam, disse a raposa. Os Homens já não têm tempo para tomar conhecimento de nada. Compram coisas feitas aos mercadores. Mas como não existem mercadores de amigos, os Homens já não têm amigos. Se queres um amigo, cativa-me.
- Como é que hei-de fazer? disse o principezinho.
- Tens de ter muita paciência, respondeu a raposa. Primeiro, sentas-te um pouco afastado de mim, assim, na relva. Eu olho para ti pelo rabinho do olho e tu não dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, de dia para dia, podes sentar-te cada vez mais perto...
“O Principezinho” de Antoine de Saint-Exupéry
Ele diz que vê no vidro uma cruz desenhada. Depois outra. Têm o tamanho exacto da distância que me separa do coração dele. Não chegam sequer a aflorar a minha pele mas cravam-se na sua e, por um segundo, o universo está ordenado e só podia ser o que é esta noite. Desfia quase uma vida sem se esquecer de que eu estou ali, escolhe palavras. Elege pessoas e pinta-me o monstro mais feio que têm dentro delas, enternece-se a recordar paixões idas, despe-me com os olhos. Nascemos devagar.
É um carro-casulo e posso tocá-lo. Desejo-o tanto que não consigo e dentro de mim amplia-se o terror de que nunca perceba. Fazemos amor de muitas maneiras e nenhuma é com o corpo, fiz-me súplica, numa sucessão de orações a que nenhum deus será capaz de responder. Não choro. No segundo em que o sentir dentro de mim ter-me-ei rendido para sempre e ele sabe. Adio o momento até o tornar indefinível. Nunca será meu.
Chove como quando estavas a morrer e, até sermos invadidos pela aurora, não olho uma única vez para o relógio. De todos os fragmentos de noites que partilhámos, este é aquele em que estou mais frágil. Perdi-me no tempo e em mim. Zanga-se quando digo que é divino mas é amado por todas as mulheres do mundo e, pela primeira vez, sinto o meu amor sem valor próprio. Une-se a esta corrente que corre na sua direcção, deixou de ser rio com caudal, tornei-me afluente que nunca chegará ao mar.
Não são só os caminhos dos deuses que são insondáveis. Também nele sou incapaz de descobrir desígnios e intenção. São tantas as pessoas que o habitam que não principia nem finda, gere infinitos e intemporalidades. Cria exércitos conquistadores, sábios no cerco a corações desolados e estrategas ardentes na desconstrução das muralhas que compõem cada ser. Cada mulher. Se o primeiro sopro de amor me não tivesse agrilhoado teria escolhido para mim uma história diferente. Hoje já não consigo.
Gostaria de dizer-lhe que serei sempre sua mas julgo que, no seu panteão de coleccionador, não fará qualquer diferença. Recordo todas as vezes que me senti prestes a lançar-me de um precipício e nascem-me asas. Anjo negro, também eu. Nem puta nem santa. Nunca terei paz. Lanço-me ao vento em agonia, queria dar as boas vindas à primavera e sei que nunca existirão campos e colinas largos o suficiente para enterrar tanto amor.
Dou-me com dificuldade. Ontem à esperança, hoje a este calvário interminável que será uma vida inteira de silêncio. Imagina-me encarnação de maldade e nunca conseguirei dizer o quão cansada cheguei até ele. Sou tantos infernos de tristeza e dor e mágoa e morte que, para mim, nunca existirá redenção. Ofereço-me ao tempo e espero que me resgate. Um dia, far-me-ei grito de revolta sem raiva. Um dia, espero que me recorde com carinho. Um dia, qualquer dia, espero que perceba que nunca fui tão feliz como nas noites em que adormecemos de mãos dadas e a ternura era a palavra indizível das manhãs…
"O que conta é o inferno da história única. Nada a substitui, nem uma segunda história. Nem a mentira. Nada. Quanto mais a provocamos, mais ela foge. Amar é amar alguém. Não há um múltiplo da vida que possa ser vivido. Todas as primeiras histórias de amor se quebram e depois é essa história que transportamos para as outras histórias. Quando se viveu um amor com alguém, fica-se marcado para sempre e depois transporta-se essa história de pessoa a pessoa. Nunca nos separamos dele. Não podemos evitar a unicidade, a fidelidade, como se fôssemos, só nós, o nosso próprio cosmo. Amar toda a gente, como proclamam algumas pessoas e os cristãos, é embuste. Essas coisas não passam de mentiras. Só se ama uma pessoa de cada vez. Nunca duas ao mesmo tempo."
Marguerite Duras, Mundo Exterior
Conto
Perdi-me dentro de mim esta noite. Escrevo, reescrevo, corrigo, ainda mal dormi. Acabei de apagar tudo, há textos e frases tão dolorosos que não devem ser guardados. Regresso à pessoa-biblioteca pública, elimino intimidades, a escrita torna-se fúria indomesticável. É sempre assim quando se me quebra a alma e descubro que o caminho de regresso a casa são as palavras. Desaparecerei porque me foi pedido. E no sitio nenhum que sou hoje, deserto onde não regressarão as madressilvas, tremo sem parar e também eu me fiz temporal e agonia. Oiço os meus mortos. Vive. Vive. Vive. Sem ti não existirá memória.
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