quarta-feira, março 30, 2011

Viverei sempre no assombro do mar. Tu também. Tantos anos depois, sei que era Junho. Pedes que te aperte um bocadinho mais. Tenho medo, corre-me vento pelo corpo, aperto e sabe-me tão bem. Levas-nos para um dos meus sitios preferidos, posso jurar que nunca to tinha confessado. Adivinhação pura. Adoro o cheiro desta noite, acho que são jasmins e sal, o mar é metade deste miradouro. Do outro agoniza um rio, está prestes a diluir-se mas é tudo harmónico, o reflexo das luzes da cidade e os farois a pairarem ao longe, há traineiras que se despedem debaixo da lua e são perseguidas por gaivotas.
- Se não parares de sorrir não te vou conseguir beijar.
Faço uma tentativa de seriedade. O céu ilumina-se de relâmpagos e também tu sorris sem parar. É alto, penso. Não resisto. Sei-me a sorrir novamente.
Estás perto e tão quente que consigo sentir-te o calor ainda antes de me tocares, sou um único arrepio, atropelada pelo coração.
- Se não sorrires, não sei se quero ser beijada. E digo-o tão baixo que durante um segundo não sei se me ouviste, aproximas-te devagarinho e caem-me na pele as primeiras gotas. Idealizei tanto este beijo e quando os lábios se encontram envergonho-me da avareza dos meus sonhos. Somos varridos pela chuva mas abriu-se-me o mundo e o tempo nos teus olhos. Deslumbro-me. E sei que, até ao final dos dias, sentirei sempre a assombração das águas.

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