Ele diz que vê no vidro uma cruz desenhada. Depois outra. Têm o tamanho exacto da distância que me separa do coração dele. Não chegam sequer a aflorar a minha pele mas cravam-se na sua e, por um segundo, o universo está ordenado e só podia ser o que é esta noite. Desfia quase uma vida sem se esquecer de que eu estou ali, escolhe palavras. Elege pessoas e pinta-me o monstro mais feio que têm dentro delas, enternece-se a recordar paixões idas, despe-me com os olhos. Nascemos devagar.
É um carro-casulo e posso tocá-lo. Desejo-o tanto que não consigo e dentro de mim amplia-se o terror de que nunca perceba. Fazemos amor de muitas maneiras e nenhuma é com o corpo, fiz-me súplica, numa sucessão de orações a que nenhum deus será capaz de responder. Não choro. No segundo em que o sentir dentro de mim ter-me-ei rendido para sempre e ele sabe. Adio o momento até o tornar indefinível. Nunca será meu.
Chove como quando estavas a morrer e, até sermos invadidos pela aurora, não olho uma única vez para o relógio. De todos os fragmentos de noites que partilhámos, este é aquele em que estou mais frágil. Perdi-me no tempo e em mim. Zanga-se quando digo que é divino mas é amado por todas as mulheres do mundo e, pela primeira vez, sinto o meu amor sem valor próprio. Une-se a esta corrente que corre na sua direcção, deixou de ser rio com caudal, tornei-me afluente que nunca chegará ao mar.
Não são só os caminhos dos deuses que são insondáveis. Também nele sou incapaz de descobrir desígnios e intenção. São tantas as pessoas que o habitam que não principia nem finda, gere infinitos e intemporalidades. Cria exércitos conquistadores, sábios no cerco a corações desolados e estrategas ardentes na desconstrução das muralhas que compõem cada ser. Cada mulher. Se o primeiro sopro de amor me não tivesse agrilhoado teria escolhido para mim uma história diferente. Hoje já não consigo.
Gostaria de dizer-lhe que serei sempre sua mas julgo que, no seu panteão de coleccionador, não fará qualquer diferença. Recordo todas as vezes que me senti prestes a lançar-me de um precipício e nascem-me asas. Anjo negro, também eu. Nem puta nem santa. Nunca terei paz. Lanço-me ao vento em agonia, queria dar as boas vindas à primavera e sei que nunca existirão campos e colinas largos o suficiente para enterrar tanto amor.
Dou-me com dificuldade. Ontem à esperança, hoje a este calvário interminável que será uma vida inteira de silêncio. Imagina-me encarnação de maldade e nunca conseguirei dizer o quão cansada cheguei até ele. Sou tantos infernos de tristeza e dor e mágoa e morte que, para mim, nunca existirá redenção. Ofereço-me ao tempo e espero que me resgate. Um dia, far-me-ei grito de revolta sem raiva. Um dia, espero que me recorde com carinho. Um dia, qualquer dia, espero que perceba que nunca fui tão feliz como nas noites em que adormecemos de mãos dadas e a ternura era a palavra indizível das manhãs…
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