sábado, julho 30, 2011

Em mim, o medo é um rio...


Não consigo adormecer. De tempos a tempos, sinto-os a infiltrarem-se nas paredes, a rastejarem pelo chão, a debaterem-se no telhado, adoptando a forma de um gato que mia, a janela bate, agora já entraram no meu quarto e instalam-se. Sentam-se na minha cama, gelados e fixos, uma brisa no cabelo, os pelos dos braços que se eriçam. São olhos que tudo vêem, mãos que não têm dedos, caras que se desfazem e escorrem, como se a substância primeva do medo fosse um rio lodoso e indistinto. Perseguem-me em labirintos e tocam um batuque ritmado no ventilador, agarram-me os pés quando tropeço, agitam-se nos quadros e sei que nunca me darão descanso. Tenho monstros debaixo da cama e dentro do corpo. Nasceram em noites sem lua, nas lajes da eira a caminho do rio, uivam e saltam e esticam-se, as histórias que perpetuam a minha vigília são uma sucessão de prodígios inesgotáveis. Cresceram comigo. Gritos alados que lanço à escuridão, perdidos na voz que calo. Aproxima-se Agosto e toda eu tremo. Antes das palavras, confessava-me à nudez tranquila das águas. E tu existias.

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