Nasci velho e estou a ficar mais simples, conta. Não nos conhecemos bem o suficiente para conseguir concordar, oiço e memorizo. Desta vez, eu que tenho tanto prazer em perder-me nas vozes dos outros, falo quase sem parar. Recordei depois uma frase que me foi repetida tantas vezes na infância “somos senhores das palavras não pronunciadas, mas escravos das que deixamos escapar”, é do Churchill, foi ele quem ma recordou, mas quando o descobri já o meu pai tinha morrido. Penso…talvez tenha ficado desiludido por não o ter questionado. Ou, se calhar não, ficou feliz pela minha serena aceitação de um facto tão óbvio. Nunca será minha a vida em que regressaremos ao ritual das conversas íntimas antes de se deitar. Acumulo perguntas sem resposta. Todas as palavras têm significado, todas têm poder. Aprende a usá-las com sabedoria. E sou acometida por uma sensação inescapável de fracasso, persegue-me há alguns dias, tenho tido dificuldade em discernir o meu caminho. Estes três dias confundiram-me, diz o homem triste à minha frente. A mim também. Suspendo a resposta a tempo, do quê exactamente não sei, devo ter sorrido mas já não consigo precisar com segurança. Escreve-me sobre o valor do silêncio enquanto resposta, só que eu ando às voltas com as frases de tantas pessoas na cabeça, é-me impossível saber quantos destes pensamentos são meus e quantos fui usurpando. Encontramo-nos quase todas as tardes, num local que não existe, vamo-nos enredando nas palavras um do outro. É uma intimidade fácil, esta. Natural. Não conseguimos ser amigos. Nunca poderemos ser amantes. Vejo-nos sem mácula, mas temo o prolongamento indefinível deste beco sem saída, todos os percursos têm encruzilhadas de onde não se regressa nunca. E sou invadida pelo eco de uma grande amizade se te sentes assim, afasta-te, não podes continuar a fazer-te isso. E a pergunta que não fiz, que não existia, mas que cresce indomesticável nos meus lábios… de quem?
* Ernest Hemingway, The Old Man and the Sea
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