- Quero falar consigo. Fique, se faz favor.
O tom é amistoso mas inequivocamente uma ordem. Desacelero o passo, mantenho-me na sala. Aguardo.
- Você é uma fraude. Não percebe patavina de Filosofia. Nem sequer consigo saber se ouviu uma única palavra do que disse nas aulas. Se leu algum dos textos.
Encolho-me. Não respondo.
- Li o seu teste. Também não consigo perceber se lhe devia dar 10 ou 20. Com honestidade. Um 16 satisfá-la?
- Sim. A resposta automática, nem sequer pensei. Serve perfeitamente.
- Há trinta anos que ensino e é a primeira vez que me acontece. Você é uma escritora natural. É tão perfeito que reli. E continuo sem conseguir perceber se considerou que o teste era tão básico que não valia a pena responder às perguntas ou se não sabe quem foi Kant e decidiu gozar comigo.
Tinha 15 anos. Tu morreste-me uns meses depois e matei os contos, os poemas muito negros, maníaco-depressivos, filha, mas porque é que só escreves poesia triste? os mil projectos de livros que não passaram da 20.ª página. Nos 15 anos seguintes não escrevi uma palavra que não fosse pela mais estrita obrigação, deixei-as agonizar infames dentro de mim. Quero recomeçar e não sei como.
Nesse ano, fiz mais quatro testes de Filosofia. Em todos tive 16.
- Olhe, escreva sobre o que quiser. É um alivio. Nunca encontro quem se interrogue.
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