“acho só que me maltratas por não aceitares quem sou e ao mesmo tempo não deixares de gostar de mim”
Amores correspondidos e felizes são anacronismos milagrosos. No meio de tanta gente disponível (ou nem por isso), carente e interessante, acreditamos que podemos encontrar quem seja capaz de nos incendiar com um olhar ou um toque, a quem queiramos tanto ou mais bem do que aquele que nos queremos, cuja inexistência na nossa vida provoque uma dor tão esmagadora, tão absoluta, que o arrastar dos dias é, de facto, eternidade no inferno. Temos de descobrir quem, num mundo imenso, se transubstancie e seja casa, luz e riso. Quem nos sinta de forma idêntica e nos deseje com fúria e bem-querer. Somadas as intenções, faltará ainda o mais difícil. Duas pessoas que se amam nem sempre distribuem felicidade mútua. Extremados os sentimentos, somos o melhor e o pior de nós. Não há nenhum grande amor que não nos exponha à mais profunda fragilidade e insegurança, que não nos dispa por inteiro. Esperamos e exigimos esforços sobre-humanos de entendimento, tolerância e paciência e mesmo assim, sentimos a insuficiência de qualquer esforço como uma agressão propositada. Por definição, sabemo-nos sempre mais amantes do que o outro e essa certeza tortura cada minuto da nossa existência. Fazer e querer bem a alguém, com generosidade e despojamento, é um exercício que tem tanto de sublime como de masoquista. Duas pessoas que se gostam são sempre duas unidades. E unicidades. Por maior que seja a afinidade das almas, que nos adentremos na essência do universo de outrem, nunca nos perdemos verdadeiramente. Negociamos, capitulamos ocasionalmente, sacrificamo-nos sem nos ser pedido. Choramos.
No sítio onde me aninhei esta semana, longe dos braços de quem gosto, questiono a sabedoria de insistir num amor incapaz de me fazer feliz…
2 comentários:
Tão pungente e despojada reflexão, tão plena de sentido e sentimento, tão verdadeira que me esmaga.
Demorei muito, muito tempo a reconhecer que muitas vezes "só" o amor não basta. Ainda hoje, em que já interiorizei esta verdade, tenho sérias dificuldades em conviver com ela...
Bjs
Não sei se é suposto "convivermos" com ela, Apple... de todas as maneiras de "desistir" de alguém, será sempre a mais frustrante e dolorosa...
M.
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