Tenho alguns medos na vida. Não são muitos e nenhum é paralisante. Quanto muito, o coração dispara um bocadinho e não gosto do que estou a ver, fico desconfortável e a desejar que passe rápido, rápido porque se vai notar e eu não gosto de dar parte de fraca.
Quando penso em ter medo, o meu pior pesadelo reside na perpectiva de viver a vida em Serviço Mínimo, como nas greves. Quando começei a sonhar a vida, não era quem sou hoje que eu via. Acho que acontece com toda a gente. Fui-me adaptando, melhor ou pior. Mas não estou a cumprir O Sonho. Assim mesmo, em maiúsculas. Há sonhos pequeninos, como o andar de balão, que quero cumprir este ano. Com mais uns quantos. Elegi 2009 como o Ano do Cumprimento dos Sonhos, como há os anos do Voluntariado ou dos Refugiados. Este é o meu, criado para ser uni-pessoal e profundamente egoísta porque acho que já dei demais para o peditório das Circunstâncias da Vida.
Não quero nada que a minha vida seja aquilo que me acontece enquanto estou ocupada a fazer outras coisas. Mas é. Esta semana tem sido. A anterior também foi. E a que veio antes. O mais complicado, nisto tudo, é que é a primeira vez que ninguém me impõe nada nem tenho de fazer ajustes em prol de ninguém. Posso escolher, com toda a liberdade, para onde vou. E merda, que a treta desta descoberta é agoniante.
Em Portugal, andamos todos tristes. Ou frustrados. As nossas vidas já andavam em crise antes da crise e agora andam ainda mais. Vamos vivendo em raivas surdas e ondas de tristeza. Somos pedaçinhos de nós e está a ser dificil construirmos um todo. O Homem completo. Eu gosto do H grande aplicado às mulheres, faz-me lembrar os grandes Humanistas do Renascimento e do Iluminismo, o dia longínquo em que nos livramos da Bestialidade e nos tornamos Maiores.
Não quero ser rica. Nem construir um grande património de coisas para legar aos meus filhos. Nesta altura, até o ter filhos me parece uma miragem estranha. Nunca fui dada a comoções de maternidade e não babo quando vejo criançinhas alheias. Houve uma altura em que queria muito uma casa, alva, feita de janelas a olhar para Lisboa. Também desisti. O relacionamento mais longo da minha vida, os tais 30 ou 40 anos, não pode ser com um imóvel. Não pode. Tive mais fases, a querer mais coisas, como o pegar em mim e reconstruir-me noutro sítio qualquer. Agora, até disso deixei de ter a certeza. Quero ir e quero voltar. Quero estar e desaparecer. Não quero fazer o que faço todos os dias. Quero ser abraçada por alguém que me deseje mas não quero ter o trabalho de ter uma Relação. A palavra, nesta fase, dá-me uma espécie de nojo, como se fosse um palavrão para designar o inominável. No fundo, o que eu queria mesmo era um livrinho de instruções: Como Viver a Sua Vida em Serviços Máximos, Atulhada em Felicidade e Facilidade, As Escolhas Certas, Passo por Passo. O que eu queria, minha gente, não existe.
5 comentários:
Não existe o manual e aquilo que nós queriamos mesmo nunca é possível. Lamento confirmar.
É aquele problema do outro lado da rua ser uma impossibilidade física...
Cressélia,
Já suspeitava mas andava a usar a técnica das avestruzes. Obrigada por teres vindo confirmar.
Dead Man 1,
Sou especializada em Ciências "Fofas". Podes explicar-me o problema?
oNunca consegues chegar ao outro lado da rua. Fica sempre do outro lado. O que é mau porque parece que nunca alcanças o que queres. Mas por outro lado é bom. Porque se um dia chegas mesmo ao outro lado da rua, paras de sonhar e isto perde a graça toda.
Ah!! Mil obrigadas pela explicação. É uma daquelas teorias fantásticas, estilo a do burro e dos fardos de palha, que eu adoro! Só que a tua aplica-se...
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