domingo, fevereiro 08, 2009

No país das maravilhas

Entrar num banco para pedir um cartão de crédito, nos dias que correm, é muito semelhante a vermo-nos no jardim da Rainha de Copas.
Esta 6ª feira, empurrada pela necessidade de alugar um carro em pátria alheia, reuni toda a minha coragem e decidi que era altura. Afinal, faço 30 este ano e já não existe o cartão do ex (nem o próprio) para resolver problemas de logística.
Expliquei, com toda a calma (garanto que tenho muita) ao senhor que me atendeu que precisava de uma coisa muito simples, que me permitisse fazer compras de livrinhos, viagens e marcação de hoteis via Net, que o cartão não iria ser utilizado muitas vezes, que não estava interessada em endividar-me até às orelhas...no meu mundo, acho que fui clara q.b.
No mundo dele e resumidos os 40 minutos em que o ouvi sem interromper, eis o que descobri:
- Podia ter um cartão Gold mas afinal não podia porque ganho menos que 2500 Euros por mês (grande novidade, mas pronto...);
- Podia ter um cartão que me desse milhas na Star Alliance, a maior companhia de viagens do mundo e viajar na Lufthansa (como repetiu 4 vezes!). Solidária com o amor pela Lufthansa e pela atrapalhação dele, decidi acrescentar "E na TAP". Teve de confirmar para depois me gritar, em triunfo "E na TAP, este é fantástico para si...". Pois, é mesmo uma pena que eu tenha queda para as low cost...
- Podia ter vários cartões associados a seguros, de que não guardo memória;
- Bom mas mesmo bom para mim, que tenho menos de 35 anos, era um que revertesse 1% das minhas compras para um PPR. Podia começar "apenas" com 25 Euros por mês mas assim fantástico era pôr lá mais de 2000 Euros por ano. Pois...
- Podia ter um cartão brutal em que gastando 500 Euros em crédito por mês ("500 Euros? mesmo que eu queira não consigo gastar 500 Euros de crédito por mês...em quê?" Nesta altura, já não podia estar mais encolhida na cadeira que, descobri subitamente, era grande demais para mim!) "Vai ver que assim que começar não vai querer parar!" ;
- Podia ter um cartão associado à prestação de acções ou à Euribor. "Não estão a descer nem nada, não é?" Silêncio. Cara fechada do outro lado. Adiante.
- Finalmente, o meu favorito de todos os tempos " Tem consciência ecológica, não tem?" Após reflexão de 2 segundos em que pensei que até me esforço, reciclo, tenho a garrafinha de água no autoclismo, desligo as luzes quando saio de uma divisão, ando de transportes sempre que possível e todos os eteceteras respondi com um singelo: Sim, acho que sim. "Então existe um perfeito para si, ligado a um fundo de emissões, reduz a sua pegada de carbono!!" Juro que esta foi nova para mim, o admirável mundo novo da ecologia a crédito...
Nesta fase, confesso que já estava exasperada. Inchei na cadeira. Enervei-me. "Acho que não me consegui explicar bem. EU NÃO COMPRO A CRÉDITO. EU sou daquelas pessoas que poupa até ter dinheiro para comprar aquilo que quer. Se não conseguir poupar, não compro! Quero 1 cartão simples. O mais simples que tiver. E pago a 100%, que não quero juros. Estamos entendidos?
É pá, gostava de conseguir descrever a cara de tristeza do homem. A sério. Compungido, ferido na alma, como se estivesse perante uma aberração: "Então, para si, se calhar o melhor é um Classic." O tom de nojo com que disse Classic convenceu-me. Se era assim tão mau, era o ideal para mim. Não tem nenhuma vantagem. Nada associado. É um mísero cartão de crédito. IUPI.
Assinada a proposta, aliviada eu, uma última tentativa: "Vai ver que se vai apaixonar de tal maneira pelo seu cartão de crédito, que vai voltar para pedir um dos outros, dos a sério. Espere até tê-lo na mão. A sua vida nunca mais vai voltar a ser a mesma..."
Saí com vontade de chorar. Aos 30, resta-me "apaixonar-me" pelo meu cartão de crédito. Definitivamente, a minha vida já não é a mesma.

Nenhum comentário: