sábado, agosto 08, 2009

Pragas, pestes, pandemias e outras que tais.

Depois de meses a gozar entusiasticamente com os receios alheios, a reencaminhar emails cretinos sobre a "suína" e a fazer os meus próprios planos idiotas de festas gripais e saudável convivência quando ela chegasse, começo a cair em mim (caio em mim, para mim e sobre mim mais vezes do que aquelas que seriam desejáveis; os meus amigos já sabem: é dar-me tempo, que a passagem do meu estádio "Miguel Bombarda/Júlio de Matos" para uma quase normalidade acaba sempre por acontecer). Pior, estou a ficar um bocado histérica. Pior ainda, começo a levantar o pânico à minha volta.
Vivo numa propensão incorrigivel para adorar e vibrar com tudo o que é bizarria e conspiração. Se a coisa não é conspirativa, eu desejava sinceramente que fosse. Se é, eu consigo encontrar literatura que a torna ainda pior. Portanto, verdadeiramente entusiasmada com a primeira pandemia global da minha vida, pus-me a ler tudo o que encontrei sobre pestes bubónicas, pneumónicas, vírus e bactérias manhosas, doenças infecto-contagiosas hemorrágicas e por aí fora.
Nesta altura, consigo enunciar uma série de coisas verdadeiramente fascinantes (para mim, que o resto da minha Humanidade conhecida encolhe os ombros e responde-me com aquele ar de condescendência típico "Oh... M., outra vez??). Vou partilhar convosco, sim? Pelo menos com aqueles que não me conhecem e que, por isso, espero, tenham um bocadinho mais de paciência para as minhas parvoíces.
Então é assim: as pragas da antiguidade não tiveram grande piada, há pouca literatura e resumem-se a umas coisitas vindas do Iemen, ou de Alexandria, ou que mataram uma parte de Atenas ou do Médio Oriente mas como foi à escala deles e há demasiado tempo, passei à frente. A coisa começa a ser verdadeiramente "gira" na Peste Negra. A Bubónica. De 1347 a 1351, foi só ver gente cair. A culpa, para quem não sabe, é das marmotas. De quem? Das marmotas, repito. As nossas amigas marmotas, ainda hoje um bicho fofinho, morrem de bubónica. Morrem, no presente do indicativo, porque a peste bubónica ainda existe e é endémica de determinadas regiões do mundo (como a Mongólia). Ou seja, pode voltar-nos a bater à porta um destes dias. As marmotas adoram ratos pretos. E os ratos pretos, espalhados pelo globo no século XIV, vivem agora todos à volta do Mediterrâneo. (portanto, minha gente, nada de trazer uma marmota como souvenir da Mongólia e juntá-la ao hamster lá de casa). Os ratinhos infectados da altura estavam embutidos de espírito Cristovão Colombo e enfiaram-se nos navios. Os ratos morriam de bubónica, como as nossas queridas marmotas. O outro elo da cadeia, não. O outro elo da cadeia são as pulgas. Nas pulgas, a peste tem 1 efeito verdadeiramente fascinante. Bloqueia-lhes a capacidade de absorção do sangue, acabando por condená-las a uma morte lenta à fome. Assim, depois de picarem um rato infectado e se lançarem de seguida ao pernil humano mais a jeito, as pulgas não tinham outra hipótese senão regurgitar a paparoca. Em cima da picada. É uma transmissão sangue a sangue (humano-ratazanal). Eu não disse que isto tinha piada? Depois de umas dezenas de picadas e muita regurgitação, a nossa pulga morre. Um momento de silêncio, se faz favor. Também me apetecia descrever aqui a morte rápida e dolorosa mas toda a gente já viu filmes e série q.b. para vos dispensar a isso (parêntesis, outra vez, e bolinha vermelha no canto direito do ecrã para acrescentar que na gripe pneumónica, vulgo espanhola, de 1918/9, as pessoas acabavam por morrer sufocadas no próprio sangue, que lhes escorria do nariz e da boca. Fechar parêntesis, que agora vou escrever sobre essa).
A pneumónica (só consigo ouvir a minha adorada amiga P. a gritar-me ao telefone "Cala-te com a pneumónica, que já não te posso ouvir!") foi um H1N1. Como a nossa, agora. Matou qualquer coisa como 20 a 50 milhões de pessoas. Quase todas entre os 20 e os 40 anos. Como a nossa. Espalhou-se especialmente depressa entre os exércitos entrincheirados na Europa (como surgiu uns meses poucos antes do Armistício, os exércitos ainda não tinham desmobilizado). Propagou-se mais depressa por causa das celebrações do final da guerra e veio em três vagas sucessivas. Outono-Inverno, Primavera e Verão. Como os desfiles de moda. Há quem acredite (ah...é por isso que eu amo os meus camaradas conspirativos) que o nível de mortalidade se deveu às primeiras campanhas de vacinação. De facto, pela primeira vez na Histórias, os exércitos da Grande Guerra foram massivamente vacinados. Contra o tifo, desinteria e por aí fora. E a gripe pneumónica apresentava características de todas essas doenças, baralhando, inicialmente, os médicos que se confrontaram com a doença. No caso das pessoas mais jovens e tendencialmente mais saudáveis, o esforço dispendido pelo sistema imunitário a combater esta estirpe, distinta da gripe sazonal, era de tal ordem que o corpo entrava em colapso. Um bocadinho como agora embora ainda seja precisa uma mutação minorca para lhe aumentar o nível de mortalidade. Ou seja, a nossa, por enquanto, ainda mostra preferência por quem sistemas imunitários mais frágeis embora se suponha que ataque menos pessoas de idade porque estas ainda possuem alguns anticorpos passados pelos pais e avós que viveram a pneumónica. Nós, jovens imberbes, já não possuímos esses anti-corpos. Shame on you.
Concluindo, (que já é hora). Vou abastecer-me de bens este fim-de-semana. Porque ela vem aí. Pode não ser hoje. Nem amanhã. Pode até ser que, por um qualquer milagre, passemos quase incólumes por esta gripe. Mas outra virá. E depois outra. Porque sempre existiram pragas e pandemias e continuarão a existir enquanto existirem vírus e bactérias. E enquanto o ser humano for tendencialmente gregário. E partilharmos espaço público e vida privada. Pelo menos agora percebi (depois de muito relato de morte horripilante) que, se derem a tal "festa da gripe", prefiro não ser convidada. Se tiver de a apanhar, apanho. Agora não vou caminhar de estandarte erguido e sorriso nos lábios para a coisa, até porque a coisa pode, de um dia para o outro, transformar-se em psicopata assassina.

2 comentários:

Dead Man 1 disse...

Enfim de regresso!!!

Anônimo disse...

A verdade que gosto muito da tua paixão pela hecatombe, calamidade e Apocalipse, divirto me imenso com ela.
Outra coisa já é, concordar, fora do humor, com a magnitude que atribuis aos acontecimentos.
Se simplesmente tens um interes histórico nas pandemias recomendo-te "A peste" de Albert Camus. Mais do que um romance
é um diário semana a semana da "peste em Oran" como protagonista analisando os factores psicosociais da quarentena numa cidade fechada ao mundo.
Discutir a dimensão que atingira a gripe suina fica fora do espaço destinado a este blog.
Por isso conmino-te a discutir-lho no jantar que me tens de oferecer e que ganhei se não lembro mal na aposta relativa a greve de transporte
que ia desembocar numa ausência general dos bens alimentares primários e por ende na hambruna.
Ate então.
Beijos